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| Elson Martins | |
Herança árabe na luta acreana
Esta semana ele me visitou duas vezes no começo da noite, e haja conversa. Não bebe, também não é um glutão: duas xícaras de café forte, de preferência sem coar (à moda árabe) bastam. Mas está ficando surdo, ou quem sabe apenas distraído, ou cansado do blablablá das reuniões formais que freqüenta. O Lhé, como nós o chamamos, é a melhor testemunha viva das mudanças que ocorrem no Acre dos anos cinqüenta para cá.Testemunha e protagonista. Ele nasceu em 1941, fui seu contemporâneo no Colégio Acreano. A imagem que guardei dele naqueles tempos era a de um par de olhos enormes escanchado em duas pernas compridas. Em 1958, saí de Rio Branco com destino a Belém num navio gaiola. Ao retornar, em 1975, o encontrei do mesmo jeito. Não, minto! Ele havia se transformado no militante de esquerda incurável que é hoje. Uma fonte perfeita para a atividade que eu iria desenvolver como repórter regional do jornal O Estado de S.Paulo, cobrindo os conflitos pela posse da terra. Ou melhor: da floresta. Ampliamos nossa amizade no jornal Varadouro, no Cineclube Aquiry e em outras ousadas ações em defesa dos povos da floresta. Mas onde, como e por que surgiu esse cara tão especial para os acreanos? É uma história que começa com o libanês Abrahim Farhat Filho, seu avô, que migrou para o Acre em 1910. Era um jovem aventureiro de 25 a 30 anos que se tornou regatão de terra-firme: com uma vara ao ombro, - na qual pendurava panelas, lamparinas, tabaco, comprimidos de Aralém e outros bregueços, - entrava na mata buscando freguesia. Os seringueiros o apelidaram de Abrahim Teleco-teco, tal era o barulho que fazia chamando atenção. Original, simpático, determinado, dois anos depois o Abrahim avô inaugurou uma lojinha no bairro do Quinze, e logo a transformou na histórica Casa Farhat, a mais antiga e mais rica da rua 17 de Novembro no segundo distrito. Isso há 97 anos. Abrahim havia deixado a mulher no Líbano, grávida do Hechem, pai do Lhé. Por ser muçulmano, se sentiu no direito de ter uma segunda esposa, mais à mão. Numa viagem a Belém casou com a portuguesa Adelina, com quem teve quatro filhos: Fátima, José, Alberto e Said Farhat. E para juntar a prole, em 1927 mandou buscar Hechem do Líbano. Hechem revelou-se um líder no comercio, sobretudo, no meio da grande colônia árabe que se formara no Acre. Em 1941, rico e prestigiado, casou com Elza (Silvia Maluf Farhat), no Rio de Janeiro, colocando mais gente no mundo: além do Lhé (o mais velho), Nilza, Helena, Fátima, Lúcia e Jorge. Em 1952 o avô deixou o Acre e foi viver com suas duas mulheres no Líbano. A bem estruturada Casa Farhat ficou com Hechem, que se esforçou para ser um cidadão acreano participando da fundação de clubes, entidades representativas, movimentos sociais da época. No seu comércio introduziu novidades, como a venda do fogão a gás. E aqui entra nosso herói, braço direito do pai fazendo diabrura ideológica. Ah! O Lhé fica com os olhos vermelhos quando lembra disso. Não de saudade ou lamentação. O que bole com sua alma é a indiferença, o pouco caso ao tanto que a Casa Farhat representou e ainda representa, mesmo definhando. De fato, a loja humanisticamente se transformou na embaixada dos perseguidos: da Palestina, do Brasil militarizado, do Chile, de Cuba, do próprio Acre pós 1964. E, sobretudo, das vítimas da bovinização a partir da década de setenta. Abrahim Neto nunca foi militante orgânico, desses de apelido clandestino, mas aprendeu com o avô e com o pai a ser solidário com as pessoas ameaçadas. Ouvia rádios de Havana, Moscou, Egito, acompanhava de perto as guerras do Oriente Médio e pregava (prega) os direitos Humanos. O pai o aconselhava: “Não se deixe levar pelo mundo do dinheiro”. Certa vez, Abrahim lhe indagou o significado de Lhé em árabe, e ele explicou: - É a pessoa rica que não se mistura com a burguesia, prefere viver entre o povo. Ah, bem! Pois o Lhé se tornou um dos mais verdadeiros aliados do movimento em defesa dos povos da floresta. Faltavam espingardas e munição para os seringueiros? A Casa Farhat daria um jeito, mesmo sob suspeita da Polícia federal. Em 1978/79, o então vice-governador José Fernandes do Rego aceitou argumentos para autorizar empenho para compra de extintores de incêndio, provavelmente, sabendo que a mercadoria era outra. E lá foram espingardas e cartuchos para a seringueirada em guerra com o grupo Bordon, em Xapuri. Chico Mendes e Raimundo Barros levavam os paus de fogo. O governador Geraldo Mesquita (1975/1979) e seu sucessor, Joaquim Macedo, fariam vista grossa se soubessem dessas artimanhas. Afinal, saiam mais coisas da Casa Farhat: um motor Montgomery solicitado pelo cacique Alfredo Sueiro, dos kaxinauás do Jordão; alimentos para os hansenianos; dinheiro em espécie para o grupo musical Raízes, montado por uma garotada do colégio secundarista CERB; compra de papel e chumbo, e despesas diversas com o jornal Varadouro; emergências do cineclube Aquiry; várias solicitações do Partido dos Trabalhadores que ele ajudou a criar. Hechem sabia do que o filho primogênito fazia em nome dos direitos humanos e da democracia. Seu irmão Alberto, que era deputado do partido comunista no Líbano fazia coisa mais arriscada por lá. Para Hechem, falecido em 1975, Lhé era um humanista, como ele próprio. E assim, a Casa Farhat envelheceu e empobreceu permanecendo ignorada em frente ao Calçadão da Gameleira. Lhé tem motivos para ficar de olhos avermelhados, guardando algum ressentimento: a Casa Farhat, embora esgotada e soturna, deveria ser considerada um preciso símbolo da liberdade. E ele próprio, Abrahim Farhat Neto, significa muitomais que uma relíquia histórica. Agradecimento antecipado A militante petista Célia Pedrina anda indignada com grupos de batuqeiros que infernizam a noite das pessoas que moram nas proximidades do Parque da Maternidade. Domingo passado ela publicou nesta coluna sua denúncia-desabafo. Desta vez, no começo da noite de sexta-feira, mandou este agradecimento... Caro Elson: Uma vez mais vou pedir licença aos seus leitores e mandar alguns recados considerando o quanto tenho sido abraçada por muitas pessoas nas ruas - eu ainda ando muito a pé -, no supermercado e nos espaços que freqüento, pelo fato das mesmas terem lido os textos que foram publicados. O engraçado é que algumas delas eu nem conheço, mas elas me reconhecem e agradecem afirmando que se sentem contempladas com as palavras, com o desabafo e com as verdades que foram ditas e transcritas. Isso tem sido muito bom, tanto para compensar alguns maus instantes pelos quais tenho passado ultimamente, como também para deixar claro que pequenas soluções para problemas do nosso cotidiano - enquanto cidadãs e cidadãos comuns - podem ser tomadas quando a vontade política da ação existe. Preciso agradecer ao pessoal da Guarda Metropolitana da PM e de outros órgãos competentes que me ligaram para informar as medidas que vão ser tomadas a partir deste final de semana, em relação aos abusos que vêm ocorrendo nas vias do Parque da Maternidade. Como hoje é sexta-feira, 21 horas, estou ansiosa e com expectativa de ter um final de semana tranqüilo, com o merecido descanso a que eu e os demais moradores temos direito. Também preciso esclarecer que o local onde fiz os exames médicos chama-se LACEN – Laboratório Central e não Hemoacre, como eu havia afirmado. Até pensei em escrever sobre o meu retorno, quando fui pegar os resultados, mas deixei de lado. Enfim e por fim, obrigada por este espaço, que ainda é um respiro dentro da imprensa local, nos moldes dos velhos almanaques, mas ainda tão contemporâneo, pois sou testemunha do quanto você é lido. (Célia Pedrina) Mas... Ao longo da madrugada Célia Pedrina voltou a enviar outros recados, num tom muito diferente do “agradecimento”: 1. Infelizmente já são 23:54, quase sábado, e eu ainda não consegui dormir. Já liguei para o 190, três vezes e nada mudou: “Sim, minha senhora a sua ocorrência foi registrada e uma viatura irá para o local”... Não veio... Desisto! Sinto-me impotente diante da situação e realmente não me resta mais nada a fazer...Assim que for possível, me mudo de um lugar onde sempre gostei muito de morar... A desordem ganhou mais uma! 2. Oi, Elson: bom dia de sábado...Tive que fazer um “ps”...Você vai entender porque... Ligo amanhã cedo pra te contar como foi mais esta noitada de “bate estaca” 3. Apenas para registrar: são 4:14 da manhã da sábado. Conforme o previsto, não dormi. Eles ou elas, continuam lá; e só para variar, liguei novamente para o 190 e a resposta desta vez foi: “Pois é, senhora! Certo, senhora, realmente suas ocorrências foram geradas, mas não temos viatura para ir até ao local”...Fiquei pensando: estamos a apenas duas ou três quadras da PM, no Centro. Precisam mesmo de viatura? . 4. São 5:37. O dia clareou e eles continuam lá...Ouço algum deles gritar: “Vamos embora?”. - “Não”, responde o outro...Vamos ficar até as seis”. Começo então a limpar minha casa morrendo de sono e de vontade de ligar pra alguma autoridade maior, mas desisto. Só vou reouvir promessas! Se o problema é carro, viatura, porque não tomar emprestado, nos fins de semana, os carros das secretarias que não funcionam aos sábados e domingos e que são muitos? Basta prestar atenção, notar e anotar: quando existe algum evento oficial, a quantidade de carros e motoristas que aparecem transportando autoridades é enorme. |
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