ESPECIAL
   PAPO DE ÍNDIO
Txai Terri Valle de Aquino & Marcelo Piedrafita Iglesias

Os Saberes Indígenas nas Escolas da Floresta

 


A Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-AC), a Organização dos Professores Indígenas do Acre (OPIAC) e a Associação do Movimento dos Agentes Agroflorestais Indígenas do Acre (AMAAIAC), com o patrocínio da Fundação Cultural Elias Mansour (FEM), apresentam a exposição Os Saberes Indígenas nas Escolas da Floresta e convidam para o evento de abertura, a ser realizado nesta terça-feira, dia 6, às 19 horas, no salão do Memorial dos Autonomistas.

A exposição reúne diversas formas de expressão cultural contemporânea de autoria indígena como livros, mapas, desenhos, esculturas e vídeos, produzidos por professores, agentes agroflorestais e alunos das escolas da floresta. Essas obras são fruto do programa educacional “Uma Experiência de Autoria”, desenvolvido pela CPI-AC, como parte de sua atuação junto às populações indígenas do Acre desde 1983.

O objetivo da exposição é fortalecer e valorizar os saberes indígenas e propiciar ao público acreano, especialmente professores e alunos da rede de ensino público, a oportunidade de conhecer e apreciar as novas linguagens (verbais, escritas, plásticas e audiovisuais) desenvolvidas no âmbito da chamada “educação escolar intercultural bilíngüe”.

PROGRAMAÇÃO
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Dia 7 (quarta-feira), 16h30, no Teatro Hélio Melo: roda de conversa sobre a função da escrita para as comunidades indígenas e sua contribuição no processo de valorização e do reforço do conhecimento; o processo de criação e pesquisa dos novos produtos culturais (livros, esculturas, desenhos, mapas e vídeos). Convidados: professores e alunos da rede pública de ensino, historiadores, antropólogos, sociólogos, educadores, escritores e autores indígenas;
Dia 13 (terça-feira), 16h30, no Teatro Hélio Melo: Exibição dos vídeos Caminhos para a vida, Aprendizes do futuro e Floresta Viva, do agente agroflorestal e videoasta Benky Pinhãta, seguido por roda de conversa sobre a produção e execução do vídeo;
Dia 14 (quarta-feira), 16h30, no Teatro Hélio Melo: roda de conversa sobre a função educativa da “autoria”na formação dos professores e alunos indígenas; o livro, o desenho, o vídeo e a escultura como instrumentos de expressão e difusão da cultura. Convidados: professores e alunos da rede pública de ensino, educadores, artistas plásticos, escritores e autores indígenas;
Dia 20 (terça-feira), 16h30, no Teatro Hélio Melo: exibição do vídeo “Agenda 31”, produzido por agentes agroflorestais indígenas do Acre, seguido de roda de conversa sobre a obra;
Dia 21 (quarta-feira), 19 horas, no Teatro Hélio Melo: Exibição do vídeo “Pega não pega”, produzido pelos professores indígenas Jaime Manchineri, Adalberto Maru Kaxinawá e Francisco Teka Katukina, seguido de uma roda de conversa sobre produção e execução do vídeo.

Os povos indígenas do Acre no tempo presente

O tempo presente dos índios do Acre é formado pelas várias situações conquistadas pelas comunidades ao longo dos últimos 27 anos. Os povos indígenas do Acre, com muita luta e dificuldade, estão tentando mostrar quem são. Fazem mais de 500 anos, desde a invasão das terras, quando nossos parentes habitavam na costa da terra que hoje é o Brasil. No Acre, desde 1978, os índios estão conseguindo recuperar seu patrimônio territorial e cultural como primeiros habitantes dessa floresta.

Com 27 anos de luta pelos seus direitos, os índios do Acre já conquistaram 34 terras indígenas; 23 estão regularizadas/registradas, 1 homologada, 1 em demarcação, 1 declarada, 1 reservada, 5 em identificação e 2 estão precisando ainda ser identificadas. Essas 34 terras estão distribuídas em 11 municípios do Acre e ocupam 2.659.068 hectares. Vivem hoje em nosso estado mais ou menos 12.167 índios, pertencentes a 14 povos indígenas. Entre esses encontram-se os Nawa e Apolima-Arara, que nos últimos anos vêm lutando pelo seu reconhecimento pela sociedade envolvente e pela demarcação da sua terra. Esses 14 povos estão organizados de várias maneiras em busca de melhorar suas condições de vida. (Prof. Joaquim Maná Kaxinawá)

As línguas indígenas

A língua indígena é como qualquer outra língua. Ela não foi emprestada nem inventada. Tem o mesmo valor que outra língua do planeta e é falada desde a origem dos povos no mundo. Na constituição brasileira está garantido o direito de falar as línguas indígenas e de continuar com os costumes e tradições. No Estado do Acre, atualmente, existem 12 línguas indígenas diferentes. Essas línguas estão classificadas em três famílias lingüísticas: Aruak, Arawá e Pano.

As línguas da família lingüística Pano são: Kaxinawá, Jaminawa, Yawanawá, Shanenawa, Shawãdawa, Poyanawa, Nukini e Katukina. As línguas da família Aruak são : Manchineri e Asheninka . A língua da família Arawa é falada pelo povo Madija. Algumas dessas línguas têm apenas cerca de 5 falantes, como a Poyanawa, Shawãdawa e Nukini. Em algumas aldeias apenas a metade da população é falante de língua indígena, como a do povo Kaxinawá, Apurinã, Shanenawa. Em outros casos, toda a população fala na língua indígena, como os Asheninka, Madija, Katukina, Manchineri, Yawanawá, Jaminawa e Kaxinawá. Além dessas línguas, tem também a língua dos índios arredios que são chamados de “índio brabo” ou índios isolados. Eles vivem nas fronteiras do Acre com o Peru.

Devido ao contato que tiveram com os brancos, os povos indígenas foram forçados a deixar de falar sua própria língua para falar o português. Esse foi o maior erro que o Brasil cometeu contra os povos indígenas. (Prof. Joaquim Mana Kaxinawá)

Escola indígena, educação diferenciada: aprendendo com a natureza e preservando os conhecimentos culturais

Por uma educação diferenciada, as comunidades indígenas lutaram muito. Hoje, as escolas indígenas trabalham dentro da realidade do povo para fortalecer o trabalho da comunidade. Os conhecimentos tradicionais são praticados e os conhecimentos que vêm de fora são complementos para o desenvolvimento dos nossos saberes. Nas escolas indígenas, a educação se faz além da escola, abrangendo mais do que saber ler e escrever. Nas escolas indígenas, trabalhamos a riqueza, o espírito que dá origem ao povo, o espírito que fica na floresta e todas as festas, músicas, brincadeiras e rituais da nossa tradição.(Prof. Joaquim Paulo Mana Kaxinawá)

A educação tradicional e a escola são dois amigos que sempre estão juntos. Um aprende com o outro, sem prejudicar os ensinamentos que cada um tem. A escola veio para ajudar a registrar, através da escrita, a língua e todos nossos conhecimentos tradicionais para as futuras gerações. (Prof. Fernando Luiz Yawanawá)

A Lei de Diretrizes e Bases garante às populações indígenas ter sua própria educação. Segundo dados da Secretaria de Educação e do Censo Escolar de 2004, existem 129 escolas indígenas e 362 professores indígenas, num total de 4.399 alunos

Curso de Formação de Professores e Agentes Agroflorestais Indígenas

Durante os nossos cursos de formação, como professor, fortalecemos o nosso ensino diferenciado. Nossos cursos são diferentes de outras escolas porque a educação de cada povo é diferenciada. Ao mesmo tempo, nossa escola se aproxima de todas as escolas pelos métodos pedagógicos de ensinar a criança índia a ler e escrever que são parecidos a de outras escolas. Ensina língua portuguesa, matemática, história, ciência, geografia, ensina a falar bem, escrever bem, mas se diferencia quando ensina a ler e escrever na própria língua. Ensina o período da colheita dos plantios, a pescaria, a caçada, a construção das moradias, o artesanato, a medicina tradicional, as músicas e festas, ensina a defender a nossa terra demarcada e lutar pelos nossos direitos. (Prof. Isaías Ibã Kaxinawá)

Na minha visão como professora, os cursos de formação se baseiam com o que vem acontecendo dentro das aldeias, de acordo com a realidade de cada povo, respeitando a tradição e os costumes de cada um. É muito difícil o trabalho dos nossos assessores e consultores pois não existe um projeto só para todos os povos indígenas, para todas as escolas. Cada povo, cada comunidade tem seu projeto político pedagógico. (Prof. Francisca Diaka Oliveira Lima Shawãdawa)

Antigamente os índios tinham toda a terra para eles viverem. Hoje nossa realidade é bem diferente. Vivemos em terra demarcada. Por isso é importante a comunidade aprender a trabalhar com o manejo dos nossos recursos naturais para não perder os costumes e as riquezas que fazem parte da nossa cultura.(AAFI Benki Pinhanta Ashaninka)

O que é a OPIAC

É a organização dos professores indígenas do Acre. As primeiras articulações em direção a essa organização iniciou-se quando algumas lideranças indígenas do Acre começaram a discutir a necessidade de ter professores indígenas em suas respectivas comunidades que falassem a sua língua, conhecessem e valorizassem seus conhecimentos tradicionais e divulgassem uma nova consciência ambiental para o uso de seu território. Após alguns anos de formação desses professores, foi criada, como extensão desse trabalho, em 1997, uma comissão para representar os interesses específicos desses profissionais indígenas junto às entidades de apoio governamentais e não governamentais e no ano de 2000 foi criada então a OPIAC.

Essa nossa organização tem como objetivo principal fortalecer a Educação Escolar Indígena Diferenciada, respeitando a política interna de cada povo, integrando os diferentes trabalhos que diversos funcionários indígenas desenvolvem dentro das aldeias (professores, agentes agroflorestais, agentes de saúde, pajés, artesãs e lideranças), valorizando e fortalecendo a cultura indígena e levando essa mensagem para dentro dos setores públicos do estado. (Prof. Joaquim Mana Kaxinawá)

O que é a AMAAIAC

Desde o ano de 1996, desenvolvemos nosso trabalho como Agentes Agroflorestais Indígenas, prestando serviço às comunidades na área de gestão ambiental do nosso território e seu entorno. Enfrentamos muitas dificuldades para o reconhecimento e fortalecimento desta profissão. Então, a melhor maneira que encontramos para conquistar nossos objetivos foi unir todos os AAFIs e elaborar um plano de trabalho para discutir uma política no Estado, dentro dos nossos interesses e necessidades. Com isso, criamos a AMAAIAC para divulgar, cobrar e solicitar todas as coisas que nós, AAFIs, precisamos e temos dificuldades para conseguir individualmente.

A Associação do Movimento dos Agentes Agroflorestais Indígenas do Acre (AMAAIAC) tem como objetivos corresponder às necessidades e interesses do movimento, divulgar, fortalecer e priorizar a categoria e os trabalhos dos AAFIs; trabalhar em parceria com outras organizações para planejar, reivindicar e executar nossos trabalhos na área de educação ambiental, implantação de sistemas agroflorestais (SAF), manejo de fauna/ flora, enriquecimento de áreas abertas, fiscalização, conscientização, pesquisas, fortalecimento das culturas tradicionais, registro das atividades dos diários de trabalho e elaboração de projetos.

(Agentes Agroflorestais do Acre)

 
 
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Rio Branco-AC, 4 de setembro de 2005
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