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| Elson Martins | |
Dom Moacyr: um bispo muito amado
CEBs significa comunidades eclesiais de base. Estas organizações religiosas prosperaram no país sob as benções do Papa João XXIII e se inspiravam na Teologia da Libertação, hoje condenada pelo Vaticano. Era a opção pelos pobres que encolheu tanto quanto a igreja católica nos últimos anos. No Acre encolheu, sobretudo, com a transferência nos anos noventa do bispo D.Moacyr Grechi para Rondônia. No vizinho estado ele se tornou arcebispo. - Não gostei nada disso, viu D. Moacyr – reclamou dona Virgínia com seus cabelos brancos e o semblante de fé verdadeira, ao utilizar o microfone franqueado para quem quisesse avivar a memória do passado recente. Nos corações e mentes acreanas, portanto, ele continua sendo o bispo da Prelazia do Acre e Purus (sem desmerecer o atual, de fato, D.Joaquim). Pelo menos foi o que se viu na festa da comunidade da Estação Experimental. Até o ex-governador Jorge Viana teria sentido inveja da chegada apoteótica de D. Moacir à histórica igrejinha, que cresceu e parece imensa hoje, embora simples em suas instalações. Para percorrer os 30 metros desde a entrada ao presbitério, pelo corredor central onde o aguardavam amigos e devotos, o bispo demorou cerca de meia hora em abraços respeitosos e calorosos, risos e choros, palmas e gritos. Foi mesmo emocionante. A festa (ou cerimônia) começou às 5 da tarde. Muitas pessoas simpáticas cuidavam nessa hora dos últimos detalhes. Havia uma mesa de frios no pátio ao lado. A imprensa televisiva compareceu e instalou suas câmeras em tripés. O sistema de som foi checado, estava perfeito. Logo na entrada, do lado esquerdo, tinha uma mesa com flores brancas colocadas sobre uma dezena de nomes, de pessoas que morreram na luta em defesa do Acre, seu povo e suas florestas. Foram lembrados: o hanseniano escritor, poeta e líder comunitário Bacurau; João Eduardo, liderança assassinada durante a ocupação do bairro que levou seu nome; o João da Volta Seca, outro importante líder que se tornou padre; José Dourado, jovem universitário e militante político; o extraordinário Matias, que transformou a familia inteira em combatentes do teatro dos oprimidos; o bispo Dom Giocondo; o mártir da floresta Chico Mendes; Leonora, Faustino, Maria de São Pedro, Domingo Crispim e Deó. Deó: eu não conhecia sua história. O ex-padre e ex-deputado estadual Manoel Pacífico, que falou sobre o início da formação das Comunidades Eclesiais de Base, disse que ela foi monitora das CEBs até ser acusada pela ditadura militar de ter assassinado seu marido. Por conta dessa falsa acusação, foi presa, torturada e morta. O ator teatral Kleber leu um texto escrito pelo ex-padre com o seguinte fecho: “Ela morreu vítima da tortura. Morreu jurando inocência. Era uma mulher pobre, negra, decente”. A cerimônia de homenagem a essas e outras vítimas das agressões sofridas pelo povo acreano no período 1970/1990 (como Ivair Igino, lembrado por D.Moacyr, e José Gilberto, por alguém da platéia), teve uma poronga acesa, parecendo uma tocha olímpica: “A luz que ilumina o caminho do evangelho e da igreja dos pobres”, comentou alguém. Talvez eu escreva aqui uma heresia para os tempos atuais da igreja dirigida pelo novo Papa, inimigo da Teologia da Libertação. Mas o que vi e ouvi ontem foi o clima da teologia por conta da qual Leonardo Boff, ex-assessor de D.Moacyr, foi punido. Estavam lá os padres Otávio Destro (ex-pároco de Xapuri), João Carlos (mentor do projeto Feijão Duro que passou 8 anos atuando no bairro Estação Experimental), Luiz Ceppi (hoje em Rondônia), André Ficarelli (da Catedral em Rio Branco) e Pe. Marcio; o deputado federal Nilson Mourão, o prefeito Raimundo Angelim, o ex-vereador Ayrton Rocha, o professor universitário Paschoal Muniz, entre outros. Enfim, quase todos cria da engajada Prelazia do Acre e Purus. É claro que o livro do Evangelho também ganhou destaque: fez o mesmo percurso da Poronga acesa e foi citado nas falas dos lideres religiosos. Dom Moacyr recomendou a todos que o lessem e enfatizou que “é preciso amar a Jesus Cristo pra valer”. Já o bispo Dom Joaquim, a quem coube encerrar a cerimônia, falou uma coisa que arrancou aplausos: “O Estado do Acre não seria o mesmo sem a Igreja Católica” - reconhecendo, assim, que ocorreram muitas lutas sociais no passado, com apoio da prelazia que comanda hoje. Memórias engajadas Horta As falas durante a festa dos antigos militantes das CEBs foram recheadas de memórias engraçadas. De fato, o clima dominante nas igrejas do Acre e Purus em décadas recentes, permitia o envolvimento dos fiéis com maior espontaneidade. O padre João Carlos, que hoje trabalha em São Paulo, contou que como pároco da no bairro Estação Experimental plantou, com ajuda da comunidade, uma horta comunitária no terreno ao lado da igreja. Certa vez, ele estava celebrando missa quando um garoto enfiou a cara por uma das janelas e perguntou, gritando: - Padre! Quanto custa um cheiro verde? João Carlos tinha um jeito muito especial de pregar o Evangelho. Durante o governo Geraldo Mesquita (1975/1979), ele fez vários sermões pedindo providências das autoridades para que retirassem uma grande lixeira existente no bairro. A providência só apareceu depois que ele decidiu rezar a missa sobre a lixeira. Canção O padre Asfury é também bom compositor e cantor. No dia 16 de dezembro de 1981, ele compôs uma canção para João Eduardo, filho de Célia Pedrina e José Gilberto que acabara de nascer. Eis um trecho: - Menino-nascido O menino cresceu, se tornou guitarrista e hoje, morando em São Paulo, brilha nos palcos do país apresentando shows como integrante da banda acreana Los Porongas. Casamento
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