OPINIÃO
   UM OLHAR FILOSÓFICO

Paulo Pinheiro da Silva

 

 

Ter o sol dentro de si

A filosofia tem na arte e na sua história um contraponto, um campo privilegiado de reflexão e um laboratório para as suas próprias criações, pois a criação na arte reflete aquilo que a filosofia, de forma mais ampla, tem de ser para ter o direito de indicar caminhos ainda não trilhados no “firmamento de sua época”. Esse conjunto heterogêneo de valores que ilumina, tal como astros de luz própria, as ações (pessoais, econômicas, estatais, artísticas e outras), onde não se encontra nenhum fio condutor, onde o embate, as disputas e as mudanças são a regra, experimenta em determinados momentos uma mudança repentina de valores, exatamente no seu extrato mais profundo! Mudança imperceptível no início, pois os olhos, os ouvidos e a consciência da sua época não podem apreender de outra forma que não seja como “liberdade artística” uma série de verdades novas.

Coube ao artista na sua inspiração realizar, ou seja, atualizar o novo na forma de transgressão dos valores estéticos. Na pintura o impressionismo e suas preocupações óticas, em que o olho, o olhar e as distorções perspectivas não são mais encaradas como estorvos e obstáculos para a apreensão das coisas em sua devida proporção. Há uma obra de Renoir que apresenta o centro do quadro em foco e as suas laterais distorcidas, tal como se a cena tivesse sido captada por uma lente de uma máquina com o diafragma aberto. Mas isso era apenas a conseqüência de uma abertura subjetiva que o romantismo do século XIX tinha no seu bojo! Era sem dúvida uma transgressão estética contra o academicismo na pintura que procurava preservar (como é sempre intento de todo academicismo) os padrões da bela arte, mas não era ainda o absolutamente novo da pintura, da música das primeiras décadas do século XX.

Da mesma forma que o nome do nosso estado nasce de uma corruptela da palavra Aquiry, uma boa parte da arte, pelo menos a melhor arte do século XX, nasce sempre de uma corruptela, ou seja, de um erro na transcrição do velho. O Jazz, o Choro são fruto, no seu início, de uma “má” interpretação (as aspas aqui são fundamentais, pois são boas e não más essas interpretações) de escalas musicais européias. As danças de salão como divertimento das classes burguesas nascentes, enquanto criadores de padrão de gosto, no século XIX, se espalharam pelo mundo. Da interpretação desregrada e infiel da polca (moda urbana e ocidental por mais de quarenta anos), por exemplo, nascem os sedutores, quentes e sensuais ritmos das Américas. As escalas eram meio européias, mas tinham que dar vazão a outros intentos, deveriam estar aptas à exploração de caminhos até então desconhecidos para a sensibilidade artística, para a expressão musical. No caso do Jazz, a indústria cultural serviu de corpo e fomentador para a exploração de toda a sua potencialidade, desde o jazz que se resumia a certos temas musicais fixos (como o choro também tinha), no início, até às décadas de cinqüenta e sessenta onde o Jazz atinge uma maturidade que rivaliza (com Charles Mingus, Dizzy Guillespie, Charlie Parker) e deixa pra trás a música dita erudita que tentava de modo bem pouco apropriado se livrar da dureza cultivada como qualidade por mais de trezentos anos!

Eles tinham, esse monstros sagrados e verdadeiros soberanos da música, a exata consciência da condição limítrofe da sua arte e mesmo da sua existência. Os metais muitas vezes eram utilizados para produzir efeitos onomatopéicos que poderíamos classificar em efeitos da floresta (Jungle) e da rua (Street). Algumas vezes, o trompete e o trombone nos transportaram para a África selvagem com girafas, elefantes e, então, uma natureza selvagem e indômita se misturava aos maiores malabarismo musicais. Eles visavam expressar almas com o sol dentro de si, com calor, com vigor, sangue e paixão, geradoras de uma música em que instrumentos produzidos para uma música melódica eram corrompidos, torcidos até produzir aquilo que lhes era negado, ou seja, se o ritmo não podia encontrar os tambores que eram proibidos nos EUA, então, torceram a melodia até produzir ritmo. Esses mesmos instrumentos também fingiam ser carros buzinas, ambulâncias e todo o alarido das cidades, mas das cidades vistas e vividas da rua.

Dessa forma eles expressavam a sua própria natureza de outro, de alteridade em todos os sentidos, pois não eram o que se podia chamar até então de norte americanos, mas não eram mais o africano. A selva africana, como o lado de lá da civilização, não era simbolizada nessas músicas, pois o que se buscava era a selva virgem da consciência, o se perder de si da arte, ou seja, um outro significado para o bicho homem (a música Pithecantropus Erectos de Charles Mingus deixa isso claro). Ou até mesmo a dissolução do homem na natureza, a superação da ordem “cartesiana”, da regra que fazia deles uma espécie de não-ser. Aquelas aventuras foram realmente epopéias na consciência, como as do Marechal Rondon só que no espírito. Na outra ponta, a rua e a outra série heterogênea do outro. O “bárbaro” que compete com a máquina pelo espaço e muitas vezes com os cães pela comida e que, até por isso, acha muito fácil fazer aquilo que para “vocês”, os “civilizados”, parece muito penoso, ou seja, ser o novo...

Mestre em Filosofia
@: ppinheirodasilva@yahoo.com.br

 
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Rio Branco-AC, 14 de maio de 2006
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