OPINIÃO
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Venâncio A. Lima *

 

 


Pesquisa revela a (des) confiança na mídia

No Dia da Imprensa, ao assinar solenemente a Declaração de Chapultepec, o presidente da República reafirmou aos empresários da grande mídia seu compromisso com a liberdade de imprensa, lembrou a responsabilidade proporcional ao seu poder que jornais e jornalistas devem ter, e manifestou sua confiança na sabedoria e no discernimento da população em relação às notícias veiculadas pela mídia.

Na mesma quarta-feira (3/5), o Jornal Nacional da Rede Globo de Televisão noticiou seminário sobre o tema realizado na Câmara dos Deputados, fez críticas a “tropeços” do governo e, além da cerimônia no Palácio do Planalto, acrescentou a seguinte informação:

“E no Dia da Imprensa, uma pesquisa da rede inglesa BBC e da agência Reuters em dez países mostrou que os brasileiros acreditam mais na imprensa do que no governo: 45% acreditam que os meios de comunicação são confiáveis e 30% consideram o governo confiável. Entre os dez países, o Brasil ficou em 8º lugar em relação à confiança na mídia – ao lado da Coréia, e à frente apenas da Alemanha. E os brasileiros demonstraram o pior índice de confiança no governo. Na pesquisa sobre a confiabilidade das empresas, a TV Globo ficou em primeiro lugar no Brasil.”

Quem se der ao trabalho de ler as 22 páginas do relatório da pesquisa – Trust in the Media – verá que ela revela muito mais sobre a grande mídia brasileira do que o sugerido na breve notícia do JN e nas matérias publicadas em jornais e revistas que trataram do assunto entre nós.

A pesquisa foi realizada pelo Instituto GlobeScan para a BBC, a Reuters e o The Media Center, e entrevistou 10.230 adultos em 10 países – Inglaterra, Estados Unidos, Brasil, Egito, Alemanha, Índia, Indonésia, Nigéria, Rússia e Coréia do Sul – nos meses de março e abril deste ano.

No Brasil, o trabalho foi realizado pela GFK Indicator e foram ouvidos, por telefone, mil adultos de nove regiões metropolitanas – Belém, Belo Horizonte, Curitiba, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo – no período de 16 a 22 de março.

Uma primeira constatação que se pode fazer é que, considerando o período em que a pesquisa foi realizada - 11 meses depois do início do “escândalo político midiático” e das revelações diárias, na grande mídia, de denúncias de corrupção envolvendo genericamente “o governo” – não é de surpreender que apenas 30% dos entrevistados manifestassem confiança no governo. Ao contrário. Talvez se possa até mesmo dizer que esse percentual é surpreendentemente elevado.

O que de fato chama a atenção é que mais da metade dos entrevistados – ou 55% – tenham dito que não confiam nas informações obtidas através da mídia. Entre todos os países pesquisados, esse percentual é igual ao da Coréia do Sul e só não é maior do que o obtido na Alemanha (57%).

A pesquisa revelou também que o Brasil é, comparativamente, o país onde os entrevistados estão mais descontentes com a sua própria mídia, conforme expresso em diferentes indicadores:

80% (oitenta e não dezoito, como consta da matéria “Brasil: mídia é mais confiável que governo”, publicada em O Globo em 3/5/2006, pág A 31) disseram que a mídia exagera na cobertura das notícias ruins;

64% (sessenta e quatro) concordam que raramente encontram na grande mídia as informações que gostariam de obter;

45% (quarenta e cinco) não concordam que a cobertura da grande mídia seja acurada; e 44% (quarenta e quatro) declaram ter trocado de fonte de informação nos últimos 12 meses por haver perdido a confiança.

Outra revelação importante é de que somente 20% (vinte) dos entrevistados brasileiros declaram confiar nos blogs como fonte de informação, enquanto os jornais impressos foram apontados por 68% (sessenta e oito) como as fontes mais confiáveis.

O quadro que emerge da pesquisa da GlobeScan no Brasil, portanto, é de uma grande mídia que exagera na cobertura apenas do que é ruim e na qual a maioria não confia nem encontra o que quer. Além disso, quase a metade dos entrevistados não acredita que ela cubra os fatos corretamente e declara haver mudado de fonte de informação por falta de confiança.

O enquadramento da cobertura que a grande mídia fez da própria pesquisa da GlobeScan – salientando o que é positivo para ela e escondendo o que é negativo – não seria um exemplo que confirma a percepção que a maioria dos entrevistados revela?

Não seria essa avaliação muito próxima daquela que outras pesquisas de opinião no Brasil indicam como sendo a da maioria da população sobre a cobertura que a grande mídia tem oferecido ao país da crise política nos últimos meses?

Se for, faz sentido a advertência feita por experientes analistas e políticos no correr desse longo processo de crise e que agora foi reiterada pelo próprio presidente da República no Dia da Imprensa:

“Se engana aquele que escreve alguma coisa sem imaginar ou sem acreditar que o povo tenha capacidade de discernimento para saber o que é exagero, o que é verdade, o que é mentira.”

* Pesquisador sênior do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política (NEMP) da Universidade de Brasília e autor, entre outros, de Mídia: Teoria e Política (Editora Fundação Perseu Abramo, 2ª ed., 2004)

 
 
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Rio Branco-AC, 14 de maio de 2006
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