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Comunidade se une para construir os próprios barcos |
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Fortaleza - Nos anos 80, os moradores da Prainha do Canto Verde, comunidade de pescadores do município de Beberibe, no litoral cearense, descobriram que as terras onde viviam há várias gerações tinham um “dono”, um certo Antonio Sales Magalhães, que pretendia fazer ali um loteamento. O que teria sido mais um caso clássico de grilagem bem sucedida, acabou se tornando um extraordinário exemplo de resistência e organização de uma comunidade. Reunidos numa Associação dos Moradores e com o apoio da Igreja, os pescadores decidiram entrar com uma ação contra o suposto dono e a imobiliária encarregada do loteamento. A lenta trajetória da Justiça brasileira fez com que só recentemente a causa chegasse ao Supremo Tribunal Federal. Mas isso só ajudou a comunidade a se fortalecer e a atrair para sua luta outros grupos da região. Uma década depois, o resultado dessa mobilização foi o projeto “SOS Sobrevivência”, que ganhou espaço na mídia em 1993. No dia 4 de abril, um grupo de pescadores partiu em jangadas numa viagem que durou 70 dias até o Rio de Janeiro. O objetivo era denunciar o risco que corriam as comunidades de pescadores do litoral cearense pela fúria da especulação imobiliária e do turismo predatório. O sucesso da iniciativa consolidou-se na forma de uma organização não-governamental, o Instituto Terramar, que teve entre os seus fundadores o suíço René Schräder, ex-executivo de uma empresa aérea que se casou com uma moça da comunidade e nunca mais deixou a Prainha do Canto Verde. Graças ao esforço dele, o Instituto Terramar somou parcerias importantes que permitiram o desenvolvimento de inúmeros projetos capazes de mudar definitivamente o destino da Prainha do Canto Verde. Hoje, até no exterior a comunidade é vista como um exemplo de sucesso a ser estudado e, se possível, imitado. Preservação: ninguém constrói ou derruba nada Há ainda um outro predador temido pela comunidade: o turismo de massa. Os moradores da Prainha do Canto Verde não querem o mesmo destino de praias como Jericoacoara e Canoa Quebrada, desfiguradas pela invasão descontrolada e pela especulação imobiliária. Por isso, ninguém constrói e ou derruba nada na Prainha do Canto Verde sem passar pelo crivo da comunidade. Na aldeia, são apenas três pousadas e quatro alojamentos em casas de moradores. E praticamente nenhum emprego direto, o que poderia ser uma perda. Mas o coordenador Jefferson da Silva explica ter sido uma opção pelo turismo comunitário. Os lucros são menores, mas há vantagens. “A Prainha do Canto Verde não tem delegacia de polícia e quer continuar assim. Sem drogas, sem prostituição, sem violência.” (Agência Brasil) Estaleiro-escola A comunidade da Prainha do Canto Verde acumula alguns feitos, como a construção do primeiro arrecife artificial do Ceará, a organização do Fórum dos Pescadores do Litoral e o curso para a formação de lideranças do litoral cearense. Mas o estaleiro-escola é, sem dúvida, um dos seus grandes orgulhos. Lá está sendo construído um catamarã, tipo de barco a vela ideal para pesca. É o primeiro a ser fabricado no Ceará e sua construção é chefiada por um carpinteiro naval trazido do Maranhão, Uelles Santos Rosa, 30 anos, que também é o mestre dos seis aprendizes que trabalham com ele. A construção do catamarã já é o passo à frente na caminhada em busca da auto-sustentabilidade. O barco é maior que a jangada e aumenta a produtividade, com a vantagem de não usar motor, que gasta combustível. Como diz o coordenador do Programa de Gestão Costeira do Instituto Terramar, Jefferson Souza da Silva, “eles não estão apenas construindo um barco, mas um futuro para a comunidade”. Comunidade vence o analfabetismo e o turismo predatório A comunidade de pescadores da Prainha do Canto Verde, no litoral do Ceará, coleciona desafios vencidos a partir do esforço de seu trabalho e o coordenador do Programa de Gestão Costeira do Instituto, Jefferson Souza da Silva, explica que como a vida do pescador é regulada pela pesca, pelo mar, “não se pode esperar que um menino ou um adolescente da comunidade que começa a sair para pescar continue freqüentando uma escola, porque na hora da aula ele pode estar no mar”. Assim nasceu a Escola dos Povos do Mar, que formou sua primeira turma funcionando nos horários em que os pescadores estavam em terra. Os professores se adaptaram e não houve problema: todo mundo terminou o primeiro grau. A educação infantil da comunidade reflete essa busca de identidade como “povo do mar”. Na Escola Municipal Bom Jesus dos Navegantes, o material didático é inteiramente baseado nos elementos da cultura local e tudo se liga à realidade e à história da comunidade. Nos livros e nos desenhos o vilão não é o bandido com o fuzil, mas o mergulhador que leva às costas o temível compressor. “Ele é o maior predador, porque destrói o habitat da lagosta. O governo não tem como agir sozinho e por isso as comunidades aprenderam a fiscalizar e estão ensinando isso aos filhos”, explica Jefferson da Silva. |
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