OPINIÃO
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Elson Martins *

 

Jovem até que ponto?

Confesso que estava curioso para saber porque se fala tanto em Márcio Bittar nos escaninhos do poder executivo e nas rodas políticas locais. Alguns dizem que “é um sujeito muito esperto, com boa lábia para enganar eleitor”. Outros, que sabe articular alianças mesclando direita e esquerda no cenário político regional. Tem gente que até fala, desenvolto, dos predicados físicos do candidato à Prefeitura de Rio Branco, um fator de atração do eleitorado feminino, mas o dissolve impiedosamente, no fim, inspirando-se no dramaturgo Nelson Rodrigues: “É bonitinho, mas ordinário”...

Bom, na segunda-feira conheci a figura no programa eleitoral gratuito do PDT. De fato, demonstra ser bom articulador, pois sendo do PPS ocupou todos os 20 minutos do programa de outro partido ancorado pelo deputado Luiz Calixto. Entretanto, apesar de jovem e atraente, Márcio Bittar pareceu desenxabido, sem graça, contrariando as indicações dos que o temem. Com o âncora, que era pior que ele, formou uma dupla que recomendava ao espectador mudar de canal.

Mas eu permaneci até o fim tentando descobrir os propalados talentos do rapaz. Deu para ver que é muito desinibido, fala sem atropelos e parece ter solução para todos os problemas sociais. Encontra facilidade, também, para dizer que está tudo errado e que sabe como fazer o certo. Mas seu discurso tem apenas uma levíssima camada do que possa ser considerado novo. Com atenção se vê que o conteúdo é velho e muito conhecido desde os tempos mais atrasados da política.

Pode-se dizer que existe na sua fala algo de assustador para quem aposta no desenvolvimento sustentável: o homem se revela raivosamente contrário ao extrativismo, negando cem anos de vida acreana que, bem ou mal, se mantém graças a exploração de duas espécies da floresta: a seringueira e a castanheira. O jovem Bittar causou-me a impressão de que não tem lido sobre a tendência existente no mundo de se explorar a riqueza natural com métodos modernos de manejo e preservação ambiental. Pelo jeito, quer transformar seringueiros, castanheiros, ribeirinhos, índios etc. em vaqueiros ou coisa parecida.

Os mais velhos – e eu sou um deles – ouviram a cantilena no auge dos conflitos pela posse da terra aqui no Acre dos anos setenta/oitenta. Os fazendeiros da época, tão bonzinhos, expulsavam as famílias da floresta com o argumento de que iam emprega-las nas fazendas e produzir carne boa e barata para elas. Mas, coitadinhas delas se não tivessem feito os empates e conquistado, entre outras coisas, as reservas extrativistas que garantiram sua permanência onde aprenderam a viver com as plantas e os animais selvagens.

Numa das coberturas jornalística que fiz na época, após um empate, ouvi um bravo seringueiro responder a um capataz de fazenda, que preferia comer carne de macaco, ignorando solenemente o boi predatório.

Até as eleições de outubro, naturalmente, seu Márcio deve aperfeiçoar os argumentos eleitorais, mas para mim não precisa dizer mais nada. Ele aparece aliado aos que se opõem ao movimento dos seringueiros que disseram não à bovinização do Acre. São os mesmos que há oito anos ocupam a prefeitura sem cuidar da cidade, ou pior, abandonando-a e enfeando onde metem a mão. O que tem de bonito a observar em nossa capital foi feito pelo governo da floresta.

Posso dizer que nas três últimas décadas passaram pela prefeitura da capital, apenas dois prefeitos que merecem ser lembrados. O primeiro foi Flaviano Melo (PMDB), no começo dos anos oitenta, quando foi assessorado por técnicos como Mary Allegretti, Terezinha Mansur, Gilberto Siqueira, Orlando Sabino e outros que hoje fazem parte ou assessoram o governo da floresta. O segundo, e melhor, foi o atual governador Jorge Viana (PT), uma cria do movimento que aposta no Acre extrativista e sustentável.

Este movimento tem um candidato,- o economista formado na UFAC, filho de Tarauacá e atual secretário das Cidades - que se chama Angelim. Nas eleições municipais de 2000 ele obteve mais de 50 mil votos, perdendo por um nada para Flaviano Melo que não é mais aquele do começo dos anos oitenta.

Portanto, prefiro apostar no Acre do Angelim, sustentável, ambientalista e extrativista; e numa capital com cultura própria, história e identidade. Chega de ameaças políticas inspiradas no berro do boi e no latifúndio.

* Jornalista

 

 
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Rio Branco-AC, 16 de maio de 2004
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