ESPECIAL
   ENTREVISTA

 

“O dia em que o Acre decidiu ser brasileiro”
Vários são os fatos históricos que contribuíram para que o Acre passasse a ser um dos Estados da federação brasileira. O Tratado de Petrópolis é um deles. Institucionalmente, é o fato mais importante, porque com ele a revolução ganhava o selo oficial da vitória. Uma conquista protagonizada por seringueiros que teimaram em se livrar do Estado boliviano. Em 17 de novembro de 1903, o Barão do Rio Branco formalizou uma outra revolução.

Na entrevista exclusiva ao Página 20, o governador Jorge Viana faz uma análise da trajetória do Acre nos últimos 100 anos, o papel do Tratado na busca da “identidade acreana” e como as mudanças no panorama político fortaleceram a participação popular na defesa do uso racional dos recursos florestais e do desenvolvimento sustentável.

Viana reconhece que o papel do Tratado foi importante, mas não esquece a participação do povo no êxito definitivo do processo revolucionário, consagrado há exatos 100 anos.

Aceita a premissa do governador, o Tratado de Petrópolis ganha uma outra dimensão. Mais democrática e mais genuína. Democrática porque é resultado da vontade do povo. Genuína porque a “Questão do Acre” foi uma peça diplomática inédita na história sul-americana até então.

No Acre, hoje, há lugar para tudo que venha a somar para seu povo. Há também um “projeto maior”, do Estado que deseja ver o sonho revelado dos seringueiros que lutaram de armas na mão em nome de uma utopia que a cada dia se aproxima mais da realidade. Confira a entrevista.

O senhor poderia falar de Barão de Rio Branco, para que a população tenha mais informações sobre personagens do Tratado de Petrópolis?

O Barão de Rio Branco era filho do Visconde do Rio Branco, que era uma figura importante do Império Português e quando Rodrigues Alves assume a Presidência da República, no dia 15 de novembro de 1902, o presidente convida o Barão do Rio Branco para o Ministério das Relações Exteriores. Ele já era diplomata, com experiência na Alemanha.

Na França, já tinha trabalhado na “Questão das Nações”, que foi um problema de fronteiras também e ele assume o ministério em um momento muito conturbado porque a Questão do Acre era notícia de primeira página de todos os jornais. Então, a Questão do Acre foi a primeira grande ação do Barão a frente do Ministério das Relações Exteriores do Brasil.

O trabalho dele foi tão completo que ele permaneceu por mais 10 anos à frente do Ministério das Relações Exteriores, apesar das trocas sucessivas de presidentes da república. Mudavam os presidentes, mas ele continuava. Isso se deve, claro, à competência dele, mas também aos resultados alcançados no Tratado de Petrópolis.

O Barão teve um papel importante, mas não se pode deixar de lembrar dos nordestinos que lutaram para ser brasileiros...

Sem dúvida. Foi bom tocar nesse ponto porque fica parecendo que a “Questão do Acre” foi solucionada pelo Barão do Rio Branco. Isso não é verdade. A gente não pode esquecer que o povo acreano, que “os brasileiros do Acre” já estavam no processo de luta há quatro anos. Então, entre 1899 e 1903, o povo acreano lutou insistentemente, de diferentes maneiras, para poder vencer os bolivianos.

O Tratado de Petrópolis foi, antes de tudo, uma conquista que surgiu da vontade do povo acreano de ser brasileiro e não pertencer a Bolívia. O que o governo brasileiro e o Barão do Rio Branco fizeram foi reconhecer essa luta dos “brasileiros do Acre” e estabelecer um acordo que solucionasse aquele conflito que era mantido e sustentado completamente pela população brasileira do Acre, especialmente os nordestinos que estavam aqui.

De que forma o Governo do Acre tem mantido viva a História do Estado?

Olha, eu sou um apaixonado pelo Acre. Tanto eu quanto o senador Tião Viana, meu irmão, fomos educados valorizando a nossa história. Meu pai teve, sobretudo, nesse processo de descoberta, um papel muito importante tanto na minha vida como na vida de meu irmão. Então, defender a valorização do conhecimento pela nossa história é uma forma de que eu respeite a minha própria história de vida. Tenho feito o que é possível para envolver professores, alunos, diretores, a fomentar e manter acesa essa chama de curiosidade por tudo aquilo que é nosso, da nossa terra.

Por isso, a construção do Memorial dos Autonomistas, a reforma do Palácio Rio Branco, a reinauguração do Museu da Borracha que agora leva o nome do nosso querido governador Geraldo Mesquita, a valorização dos nossos personagens, como Plácido, Galvez. Enfim, temos toda uma equipe que pensa dia e noite uma forma inovadora de promover mudanças.

Nesse caso específico da valorização da nossa história para as gerações presentes e futuras, temos um carinho mais especial ainda porque quando se mexe com os símbolos de um povo, está se tratando com algo quase sagrado.

Como foi a experiência da sessão solene em Brasília, no Senado Federal?

Foi uma coisa marcante na minha vida. Emocionante, mesmo. Eu tenho muito orgulho de ter tido meu pai como congressista, ter o Tião como senador, que hoje é uma referência dentro do Senado no Congresso Nacional. Mas eu nunca tive a oportunidade de ir à tribuna e falar. Eu sempre estive no executivo. Nessa sessão, que nós tivemos em homenagem especial ao Tratado de Petrópolis, à Revolução Acreana, ela foi presidida pelo presidente do senado, José Sarney, que ficou presente o tempo inteiro. A sessão foi muito prestigiada e eu tive o privilégio de falar na tribuna. Então, foram discursos maravilhosos. Geraldinho, Sibá Machado, Perpétua Almeida, Nilson Mourão, parlamentares de Rondônia falaram. Foi muito bonito.

Qual a relação que o senhor faz entre a trajetória do Acre nesses 100 anos e as mudanças do Estado hoje?

Eu ponho minha alma, o meu sentimento nisso. E o que eu tenho de conhecimento, que com a ajuda dos outros eu fui acumulando, é que eu não consigo ver um país, um Estado, um povo indo para frente se ele não valorizar o passado.

O Acre tem uma história linda, única. É um povo que não é brasileiro por acaso. Um povo que lutou, pegou em armas para fazer parte do Brasil, para ser reconhecido como brasileiro. Isso deu um sentimento muito grande a todos nós. E as pessoas que vieram de fora para cá, que chegam aqui para morar com a gente, muitos absorvem isso, e viram acreanos de verdade, independente do lugar em que tenham nascido. Eu conheço muitos.

Agora, o que nós temos que fazer? O Acre só existe por conta da floresta, da borracha, da castanha. Mas, essencialmente, da borracha, da seringueira, do látex. Foi isso que fez com que o Brasil, inclusive, se fortalecesse no começo do século passado.

A borracha era o terceiro produto na exportação brasileira. Agora, claro que cabe outras atividades econômicas. Nós temos uma pecuária consolidada, temos possibilidade de uma agricultura, e temos outras possibilidades de serviços. Mas eu acredito, sinceramente, que o grande negócio para o Acre, para o nosso povo, é a gente encontrar um jeito de utilizar melhor essa riqueza que Deus nos deu. Não temos que sair querendo inventar nada. Aqui no Acre nós temos que colher com inteligência o que está plantado.

Isso quer dizer que a floresta é o nosso diferencial competitivo?

Exatamente. Porque se a gente quiser, aqui no Estado, reproduzir aquilo que outros locais já fazem, provavelmente os outros Estados vão sempre estar na nossa frente. Seja do ponto de vista da quantidade ou da qualidade. Mas se nós formos trabalhar a exploração da nossa floresta, isso não ocorre.

A floresta é o que nos diferencia dos outros. O único jeito de se defender a floresta é usando-a com sabedoria. É vendo uma maneira de tirar o que ela tem de maduro para melhorar a vida das pessoas, gerar emprego, impostos e riquezas ao nosso povo. Eu fui a dois países: a Costa Rica e a Finlândia. São países que fizeram opção pela floresta e estão muito bem. Têm os melhores indicadores sociais, têm bons indicadores econômicos e respeitam o meio ambiente. Eu acho que esse é o caminho para o Acre. Sem prejuízo de outros caminhos.

Em Brasília, o senhor também participou de um debate na TV Senado junto com o senador Tião Viana e o historiador Marcus Vinícius...

O Marcos Vinícius para mim é um exemplo. Ele está no Acre há nove anos. Tem um conhecimento profundo do Acre. Foi professor da Ufac. Hoje trabalha com a gente no Patrimônio Histórico. O Marcos Vinícius é mais acreano do que muita gente. Ele incorporou o Acre como sua terra, estudou, é um profundo conhecedor da nossa história, defende o Acre em todo lugar. Eu acho que isso é que conta.

Eu lembro que o Acre sempre teve esse espírito de defesa, esse orgulho de ser acreano, de valorizar as nossas coisas.

Quais são as perspectivas do Acre hoje?

O nosso primeiro mandato foi para consertar, arrumar a casa, ajustar. No segundo mandato, a nossa intenção é fazer com que o Acre tenha uma economia forte, com mais emprego e com mais renda. Se você for lá no Segundo Distrito vai ver o Novo Distrito Industrial sendo instalado.

O Acre pode se viabilizar como uma potência econômica em pouco tempo. Em três anos vamos ter o setor florestal como sendo o mais forte da economia no Estado. Somados com os outros produtos da pecuária que tem boa capacidade já instalada e uma boa renda, e também com a agricultura, não tenho dúvidas de que a economia acreana terá bases sólidas.

Não temos que ficar desmatando mais. Se for num lugar que precise de uma certa expansão, acho que dá para trabalhar. Por que ficar brigando para desmatar mais, se a gente não usa bem o que já foi desmatado?

A programação do 17 de novembro será vasta. Fale um pouco sobre essa programação.

Primeiro, eu queria agradecer a todo mundo que participou. É um momento de celebração em todo o Acre. Esses 100 anos não têm dono. Esse dia 17 não é meu. É nosso. E eu queria convidar todo mundo para hoje, às 19 horas, participar de uma missa na catedral, com a apresentação da orquestra sinfônica. O Mário Brasil, outro acreano ilustre, vai ser o regente.

Amanhã, segunda-feira, nós vamos lançar o livro do professor Valdir Calixto, que é um grande mestre da nossa universidade. Teremos uma procissão que a Prefeitura de Rio Branco e a escola Imaculada Conceição estão organizando em homenagem a Nossa Senhora da Seringueira, que é parte da programação também.

E, à noite, vamos estar fazendo uma homenagem, no Teatro Plácido de Castro, a pessoas e instituições das mais diversas áreas. Serão homenageados jornalistas, políticos, pastores, bispos, empresários, comerciantes, agricultores, funcionários públicos. E alguns acreanos que se tornaram personalidades no Brasil afora.

Queremos dizer, simbolicamente, muito obrigado a todos que ajudaram nesses 100 anos do Acre. Como governador, tenho esse privilégio, que o povo me concedeu. Estou emocionado e feliz porque esse momento é um prêmio para mim também. Eu não troco o Acre por nada. E agora é um momento de comemoração e de união para que, daqui em diante, o Estado possa alcançar um novo nível de sociedade e de economia.

 
© Copyright Página 20 todos os direitos reservados    -      Imprimir       -       TOPO
Rio Branco-AC, 16 de novembro de 2003
 COTIDIANO
 COLUNAS
 ENTREVISTA
 ESPECIAL
 ESPORTE
 POLÍTICA
 OPINIÃO
 VIA PÚBLICA
 EDIÇÕES
 EXPEDIENTE
 E-MAIL
 
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Com Leonildo Rosas
   ANCELMO GÓIS
Com Ancelmo Góis
 
 
Google