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Guerra na fronteira é pela sobrevivência

Brasileiros que moram em seringais bolivianos vivem em regime de exploração, mas não querem sair

Regiclay Saady
Gilmar, 11 anos, traz um veado
nas costas e um jacu nas mãos; ele
parou de estudar e mora com os pais


Leonildo Rosas

Há 104 anos, um exército formado por seringueiros rebelou-se contra a exploração boliviana e lutou para transformar o Acre em terra brasileira.

Vitoriosa nos campos de batalha, a guerra no coração da selva amazônica foi confirmada por vias diplomáticas após a assinatura do Tratado de Petrópolis, em novembro de 1903.

Desconhecida pela maioria dos brasileiros, a saga da conquista do Acre e a luta pela preservação do meio ambiente pelos povos da floresta serão apresentadas ao resto do Brasil e do mundo, a partir de janeiro do próximo ano, por meio de uma minissérie escrita pela acreana Glória Perez, que será transmitida pela Rede Globo de Televisão.

A minissérie tratará dos heróis do passado, que puseram suas vidas nessa causa. A homenagem transmitida em cores deverá servir para chamar a atenção das autoridades para a realidade em preto e branco dos brasileiros que ainda hoje vivem nos seringais bolivianos.

Estima-se que quase dez mil extrativistas morem em terras bolivianas. É um exército cuja única guerra que trava é para sobreviver numa região que conta com uma rica fauna e flora.

Se a luta do passado foi para romper os laços com a Bolívia, o que essa gente hoje deseja é o inverso: quer permanecer na suas colocações produzindo alimentos para a subsistência, extraindo da floresta a castanha e o látex.

Esses brasileiros não querem entrar para os livros da história como heróis. São felizes com o pouco que têm. Sobrevivem da agricultura familiar, criação de animais domésticos, caça, pesca e do extrativismo, mesmo que para isso se sujeitem a viver em regime de escravidão branca imposta pelos novos coronéis de barranco.

Esses trabalhadores não têm proteção nem do Estado boliviano nem do brasileiro. São órfãos do amparo estatal. São amparados tão-somente pela própria natureza, que lhes abastecem dos alimentos necessários para garantir a sobrevivência.

Vivem na fronteira tênue que separa a legalidade da ilegalidade. São vidas esquecidas pelas autoridades. Dependem da boa vontade dos seringalistas em deixarem que vivam como posseiros em colocações distantes no meio da floresta.

Mas esse é um mundo que não querem deixar. É nele que se sentem seguros, livre dos problemas sociais das cidades, principalmente para quem não tem a devida qualificação profissional para ingressar no mercado no trabalho.

Nos seringais não há fome. A caça é abundante. Terra para plantar e colher também é garantida. A única exigência dos seringalistas é que eles quebrem castanha na época de colheita.

Quando vem a safra da castanha, vem a exploração do patrão. O paradoxo é que também é quando vêem dinheiro. Não é muito, mas garante o rancho durante seis meses.

A aparente segurança dessas pessoas, no entanto, foi quebrada com a política nacionalista do presidente da Bolívia, Evo Morales. Entre as várias medidas adotadas, a que mais preocupa é a que o governo irá fazer a reforma agrária no país.

As notícias transmitidas pelas emissoras de rádio brasileiras são a de que o governo da Bolívia vai expulsar todos os estrangeiros que moram dentro dos 50 quilômetros da área de fronteira.

Esse é um assunto que leva o desespero para dentro da floresta. Tira o sono de homens, mulheres e crianças que não vêem perspectiva de encontrar lugar melhor para morar no Brasil.

Abalam pessoas como Gerson Jorge da Cunha, o Bolo, que está nos seringais bolivianos desde um mês de nascido. Chegou com os pais, que também eram extrativistas. Hoje, tem 60 anos. Nunca morou no Brasil. Dos seus seis filhos, dois são registrados como bolivianos.

Desde que ouviu pelo rádio que o governo boliviano pretendia expulsar os brasileiros, Bolo perdeu a tranqüilidade. Nos últimos meses, deixou sua colocação sete vezes para buscar informações precisas em Cobija (Pando), no Consulado Brasileiro e na imigração boliviana. Não obteve nada concreto.

A situação de Bolo é igual à de todos os outros brasileiros que procuraram se legalizar, mas não conseguem o visto de permanência. As autoridades bolivianas da imigração em Cobija não estão fazendo a documentação sob a alegação de que não têm ordem de La Paz para fazer isso, apesar de haver um acordo bilateral firmado entre os países em setembro do ano passado estabelecendo regras.

“Primeiro, disseram que teríamos que pagar oitocentos bolivianos de entrada e mais cinco mil bolivianos por ano para ficarmos nas colocações. Na última vez, não falaram em dinheiro, mas informaram que teremos que nos legalizar até novembro”, diz.

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Rio Branco-AC, 17 de setembro de 2006
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