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Escrito por Marcos Vinícius Neves - mvneves@riobranco.ac.gov.br   
20-Dez-2009
Neste ultimo artigo do ano queria pedir licença aos improváveis leitores da coluna para cantar uma musica, contar uma história e fazer uma prece em forma de canção. Nessa ordem.
 
Este foi um ano denso, como naturalmente são os anos ímpares. Tudo caminhou bem até o início da primavera. Mas, logo, a dor se instalou com gosto de partida. Dor infinita e definitiva.
Nestas ocasiões só podemos, então, sondar o sentido da vida e nos pormos atentos aos sinais do tempo. Porque, é preciso reconhecer, é a morte que define de fato quem somos...

É tão estranho
Os bons morrem jovens
Assim parece ser
Quando me lembro de você
Que acabou indo embora
Cedo demais.

Eu continuo aqui,
Com meu trabalho e meus amigos
E me lembro de você em dias assim
Um dia de chuva, um dia de sol
E o que sinto não sei dizer.

É tão estranho
Os bons morrem antes
Me lembro de você
E de tanta gente que se foi
Cedo demais
(Love in the Afternoon - Legião Urbana)

Há algum tempo atrás tive uma impressão rápida, simples, assim, de relance. Daquelas que nos assaltam inesperadamente e preenchem de significado anos de duro aprendizado e de peias merecidas.
Naquele dia encontrei Cristo andando pelas ruas de uma certa Ilha de São Luis. Ele andava de muleta, usava uma camiseta rasgada e ainda assim brilhava diante de meus céticos(cínicos) olhos.
Este ano fui novamente assaltado por aquele mesmo signo de um sacrifício inexplicável em outras vidas comuns e, ao mesmo tempo, raras por seu brilho único, e não pude deixar de tornar a perguntar...
Afinal, qual o sentido de tanto amor e dor que a vida nos reserva...? Porque tantos cristos anônimos andando pelas ruas, tocando nas rádios e aparecendo nas tvs, todos os dias, sem que deles nos demos conta??? 

Esta é a história de um menino comum. Corajoso como os meninos, frágil como todo menino. Mas nele havia algo estranho, ou nem tanto assim. Sua irmã via aquilo e o compreendia.
 
Mas os outros meninos não. Ôôôô coisa cruel é menino. Não deixavam passar sua estranheza e o atormentavam todos os dias. Não aceitavam os gestos, o jeito, os gostos do pequeno menino. Menos sua irmã, porque lhe compreendia e amava.

Mas esse menino era corajoso mesmo, nem parecia a pessoa frágil que na verdade era. Cresceu lutando. Queria sentir sua diferença na plenitude. Não aceitava que lhe forçassem a ser quem não era. O menino começava a se tornar um guerreiro então. Ainda assim não lhe compreendiam, menos sua irmã e seus primeiros amores.

O menino, agora quase-guerreiro, cresceu assumindo seu caminho, enquanto contava histórias para as crianças dos bairros pobres da cidade. Via nos olhos deles sua própria inocência. Como via a crueldade que a vida lhes impunha, e os compreendia.

Mas logo o pequeno guerreiro precisou enfrentar o mundo. Sua cidade, seus bairros pobres, o encontro na praça, os amores escondidos, ficaram pequenos demais pra ele. Precisa crescer, precisava encarar a vida e compreender o sentido de seu destino.

Ganhou a estrada então, atravessou o oceano, alcançou o Velho Mundo, conheceu o brilho da noite, o frio das ruas, a solidão das madrugadas, mudou seu nome, seu corpo, sua realidade contraditória. Só não perdeu sua coragem e a vontade de ser desejado, amado, compreendido.

A ultima vez que eu o tinha visto, ele ainda era pouco mais que um rapazote, muito magro, alto e com a cara cheia de espinhas. Eis que depois de muito tempo ele me surge, candidato à Rainha do Carnaval, montado, cheio de paetês e lantejoulas, longos cabelos, peitão, bundão, mulherão. Ao lado dele, sua irmã e sua companheira, orgulhosas, corajosas como sempre. Boquiaberto não acreditei no que via... fruto da incompreensão e estupidez de quem foi condicionado para uma aparente normalidade.

E não é que, naquele ano, ele foi mesmo eleito Rainha do Carnaval e brilhou diante de todos os moradores dessa cidade que sequer lembravam das crueldades do passado. Como se o que fazemos aos meninos não contasse, como se os homens que se tornam guerreiros não houvessem sido, um dia, apenas meninos, diferentes ou não, compreendidos ou não.

Depois não o vi mais e soube que ele havia tido um filho. Fruto de um amor distinto. Integro como só sabem ser os amores verdadeiros. Amor que liberta, completa e alimenta o que de divino há em todos nós. Amor correspondido, compreensivo, definitivo.

Porém, neste ultimo outubro, de repente, me chega a noticia que ele havia partido pra sempre. Jovem, muito jovem. E me veio à mente a imagem dele vestido como Rainha, brilhando, dançando sob as luzes do palco, diante dos olhos admirados da multidão. Só então compreendi que ele era filho do Senhor da Guerra Sagrada. E aquele que eu via como se fosse mulher e rainha, na verdade, era um guerreiro esplendido, vestido com as roupas e as armas de Jorge, dourado, brilhante, cumprindo plenamente seu destino de lutar e vencer os inimigos que invariavelmente surgem diante dos que lutam por amor.
Ciao César.

Jorge sentou praça
na cavalaria
Eu estou feliz porque eu também
sou da sua companhia

Eu estou vestido com as roupas
E as armas de Jorge
Para que meus inimigos tenham mãos
E não me toquem
Para que meus inimigos tenham pés
E não me alcancem
Para que meus inimigos tenham olhos
E não me vejam
E nem mesmo pensamento eles possam ter
Para me fazerem mal

Armas de fogo
meu corpo não alcançarão
Facas e espadas se quebrem
sem o meu corpo tocar.
Cordas e correntes arrebentem
sem o meu corpo amarrar.
Pois eu estou vestido com as roupas
e as armas de Jorge
Jorge é de Capadócia
Salve Jorge! Salve Jorge!
(Jorge de Capadócia - Domínio Público
- Jorge Ben Jor)

Eu quis muito contar essa história e fazer essa prece (logo eu que nem sou de rezar) num certo evento, mas não foi possível. Depois disso outras partidas revelaram que de nada adianta querer antecipar o tempo. Há que se viver dia após dia.
Este artigo é dedicado aos que por aqui ficam, com a dor da vida, e essa imensa saudade que nunca se acaba. (Yáskara, Tammiles, Desterro, Sérgio e Sandeura).

OBS final: A partir desta semana a coluna Miolo de Pote vai dar um tempo. Já faz três anos que venho aqui contar histórias e nem tinha me dado conta. Mas, como desde o início dos tempos, cada fim corresponde a um novo começo... Se tudo correr bem e fizer sentido, em fevereiro voltamos. Que nossa Senhora da Seringueira do Acre abençoe a todos no ano que lá vem...

Vá, se mande, junte tudo que você puder levar
Ande, tudo que parece seu, é bom que agarre já(...)
o vagabundo esmola pela rua
vestindo a mesma roupa que foi sua
risque outro fósforo, outra vida, outra luz, outra cor
e não tem mais nada negro amor
e não tem mais nada negro amor
(Negro Amor – Bob Dylan)
 
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