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Eu nunca pensei em ser professor.
E foi um acaso entrar na profissão.
Em 1980 ainda não havia concurso para o funcionalismo. A prefeitura de Rio Branco precisava de um professor para a disciplina de Técnicas Agrícolas. Ocorre que neste ano estava se formando a primeira turma de Agropecuária no antigo CESEME (hoje Cerb). Soube que a direção da escola recebera um ofício da prefeitura aventando a possibilidade de contratar o melhor aluno do curso. O nosso campeão era o Valdir Gavião, que não aceitou. Então o próximo foi chamado. E lá fui eu ser professor. E o Valdir se tornou bancário e um dos maiores bateristas do Acre.
A primeira aula a gente nunca esquece, e se deu numa tarde quente na escola Luíza Carneiro Dantas, para crianças da Cidade Nova que cursavam a 6ª. Série (também trabalhei no Diogo Feijó, na Floresta).
A escola passou a ter outra dimensão em minha vida.
Nessa época, eu já militava clandestinamente na esquerda e fazia movimento estudantil. O Brasil vivia numa ditadura militar que iniciava seu desgaste pelo crescimento da resistência democrática. No Acre, os governos conservadores faziam coro com o status quo, mas o movimento social dava seus primeiros sinais de organização. Eram os sindicatos de trabalhadores rurais sendo fundados com influência direta da Igreja Católica, inspirada nos ideais da Teologia da Libertação, era o movimento estudantil tentando implantar os grêmios em substituição aos CCEs (Centros Cívicos Escolares) e a UFAC se mobilizando nas primeiras discussões de uma UNE recém-reconstruída. A ASPAC (antiga Associação dos Professores) tomava nova dimensão e se preparava para dirigir a primeira grande greve da história do Acre (1980) e protagonizar por quase uma década as lutas do movimento sindical urbano.
Os embriões do PC do B, PCB, ALN, MR-8, IV Internacional, estavam se alojando no crescente fértil de nossas utopias e um movimento cultural muito intenso, vibrante, circulava pelas esquinas da cidade. Política, comunismo, socialismo, Moçambique, Cuba, Chico Buarque, Augusto Boal, jornal Movimento, Varadouro, Zé Ramalho, Elomar, tudo ia sendo batido no liquidificador dos nossos desafios.
Em 1979 eu havia representado o Acre no primeiro encontro nacional pela reconstrução da UBES (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas), numa viagem de fim-início de ano, ao lado do Airton Rocha e do Marcos Montysuma, numa programação que envolvia um seminário da UNE em Salvador, Bahia.
Na reunião dos secundaristas da UBES, ficou decidido que comemoraríamos o dia 28 de março nos nove estados presentes, dia em que o estudante Édson Luiz de Lima Souto fora assassinado no restaurante Calabouço, no Rio, em 1968, na época das enormes passeatas.
Imagina isso em 1980, aqui no Acre. Mas fizemos e aconteceu. O auditório do CESEME ficou superlotado. Havia um crescimento do movimento estudantil muito por conta da conquista da meia-passagem nos ônibus, ocorrida no ano anterior, de forma que o 28 de março foi um sucesso, apesar de uma bomba que jogaram no auditório (para pânico e correria de todos) e eu ter de sair da cidade por uns três dias, ao lado do Valdomiro Andrade, que também dirigiu o ato político.
Nesse período eu já estava lendo Lênin. O primeiro livro a gente nunca esquece: “Duas Táticas da Social-Democracia na Revolução Democrática”, que o Airton Rocha me emprestou junto com o “Poder Jovem”, do Arthur Poerner. E também estava me impressionando com Tchaikovsky, Beethoven, Chopin, que o ator de teatro, Jorge Carlos, me dava para ouvir.
Escrevo essas coisas por uma simples questão: eu via a escola como um espaço de luta muito forte. E subitamente, eu passo a dar aulas nessa mesma escola.
Tudo mudou. As paredes, os corredores, as salas de aula e – agora – a dos professores, pagelas, provas, giz. Foi uma convivência confusa e intensa entre ser professor e militante estudantil. Mas deu certo.
Um fato, porém, sempre me chamava a atenção.
Houve um filme inglês de muito sucesso, intitulado “Ao Mestre com Carinho”, de 1968, dirigido por James Clavell, com o ator negro Sidney Poitier, e que tinha aquela música – impagável - “To Sir, With Love”, interpretada pela atriz e cantora escocesa, Lulu.
(Escute a música aqui: http://www.65anosdecinema.pro.br/Ao_mestre_com_carinho.htm)
O filme é um melodrama, em que pese o elogio.
Não encontrei nenhuma identidade dele com meu novo trabalho. Não dava para romantizar aquele período tão difícil.
Mesmo assim, fui me encantando com a sala de aula, com os alunos, com os estudos (porque dar aulas significa estudar muito, muito).
Foi então que conheci um poeta comunista pernambucano admirável, chamado Alberto da Cunha Melo, que estava semi-clandestino no progressista SESC do Acre, trazido pelas mãos de outro camarada, o Pedro Vicente. Rapidamente fiquei amigo do Alberto da Cunha Melo, dono de uma singeleza e cultura inimagináveis.
Foi quando uma poesia redefiniu minha nova vida.
Em 1979, o Alberto publicou um livro chamado “Noticiário”, pela Editora Pirata (era pirata mesmo, imprimia os livros clandestinamente). E foi neste livro que me deparei com o poema que deu sentido à minha profissão, no seu nascedouro.
Estávamos eu, o Jorge Carlos, o próprio Alberto e Cláudia, sua mulher, tomando vodka e cachaça numa madrugada daquelas, quando o poeta traz o seu livro. Lemos pela primeira vez o “Aos Mestres, com Desrespeito”. Me encantei. Peguei o violão e fomos fazendo uma música em cima da letra. Não sei, mas acho que quando amanheceu já tínhamos uma canção.
“Aos Mestres, Com Desrespeito” é um manifesto e uma resposta ao filme açucarado “Ao Mestre com Carinho”. E foi escrito diretamente aos professores conservadores, reacionários, que reproduziam a ideologia dominante nas escolas e, especialmente, os ditames da ditadura, contribuindo no anestesiamento e emburrecimento das consciências de toda uma juventude.
Pronto.
Minha profissão tinha sentido.
Iria ser um professor que ensinaria o contrário.
E, o mais emocionante, havia encontrado a substância do meu trabalho numa poesia!
E até hoje agradeço ao meu poeta...
O Alberto e o Jorge Carlos (que hoje mora e poetisa em Portugal)...
AOS MESTRES, COM DESRESPEITO
Alberto da Cunha Melo
Dizem que meu povo
é alegre e pacífico.
Eu digo que meu povo
é uma grande força insultada.
Dizem que meu povo
aprendeu com as argilas
e os bons senhores de engenho
a conhecer seu lugar.
Eu digo que meu povo
deve ser respeitado
como qualquer ânsia desconhecida
da natureza.
Dizem que meu povo
não sabe escovar-se
nem escolher seu destino.
Eu digo que meu povo
é uma pedra inflamada
rolando e crescendo do interior para o mar.
Alberto da Cunha Melo faleceu em 13 de outubro de 2007. Sua obra faz parte da grande literatura nordestina e brasileira. Sua vida, um exemplo inesquecível da verdadeira “philia”, a imensa e profunda amizade, o caloroso e oceânico amor pela vida, pelos homens, pela liberdade.
Leia o lindo texto sobre Alberto, escrito pelo amigo Pedro Vicente:
http://blog.trilhasliterarias.com/2008/08/17/coisas-da-vida-de-um-certo-alberto-cunha-melo-por-pedro-vicente-c-sobrinho/
E também no Blog do Pedro Vicente:
http://cenasecoisasdavida.blogspot.com/2008/10/tributo-ao-poeta-maior-alberto-da-cunha_13.html
Leia o livro “Noticiário” em PDF, gratuito:
http://www.albertocmelo.com/literatura.htm
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