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Escrito por José Augusto Fontes - jafontes@osite.com.br
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07-Fev-2010 |
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Estivemos novamente em Fortaleza-Ce, paixão de muitos acreanos. Nós nos identificamos com o jeito do povo alegre e simples daqui. Admiramos a beleza da cidade e somos bem acolhidos por ela, que clareia nossas idéias, lava nossos corpos e rejuvenesce nossos espíritos, com seu jeito de metrópole aconchegante. Gente do mundo todo vem para Fortaleza e cria laços de proximidade. A cidade passa a incluir moradores das mais diversas partes do mundo, como o norueguês Fred, que conheci no restaurante Tocantins, um ambiente da velha guarda da boemia, com músicas de seresta e boa comida, durante a madrugada. Ele me disse, em espanhol, ser maravilhado com Fortaleza, que para ele é o paraíso. Informou que neste janeiro, lá na cidade dele, a temperatura esteve em 40° C negativos. Já morou em Málaga, mas prefere o jeito acolhedor do Ceará; gosta do Meireles, do sol e da cachaça. É só um exemplo, dentre várias outras pessoas que chegam de Portugal ou do Acre, da Suíça ou do Amazonas, da Ucrânia ou de Feijó, como a atendente de uma padaria, na rua Santos Dummont. E acreanos não faltam! Encontramos com vários, até com alguns que a gente passa o ano inteiro sem ver em Rio Branco, e acaba encontrando por aqui. Outros que a gente já sabia que viriam e tantos outros que aqui residem, que nos pedem notícias de lá e nos abraçam com longos braços de saudade.
Passeando um pouco além de Fortaleza, estivemos em Flecheiras, Mundaú e Lagoinha. Fomos com o brother Paulo, com sua Fernanda e a filha deles, Mariana. Flecheiras cresceu bem, desde quando estivemos aqui em férias anteriores. A série Sem Limites (Globo) foi gravada em Flecheiras e Mundaú, no ano passado, e isto notabilizou mais a região. As praias são belíssimas, o encontro com o rio é um espetáculo especial e o lindo quadro do local se completa com muita areia e mangues. Em Lagoinha a paisagem é inconfundível, ímpar, incomparável. Os coqueirais, as palheiras e palmeiras, a praia vista do alto e um mar inesgotável compõem o cenário deslumbrante, que nossos olhos registram e o sentimento arquiva. Também em Lagoinha houve um crescimento notório, aumentaram as pousadas e até se vê o surgimento de um esquisito espigão de concreto lá adiante da praia principal, que parece manchar o conjunto natural. No Mundaú e em Flecheiras, é possível ver jegues passeando na praia e aves planando perto das velas dos barquinhos que procuram o peixe de cada dia. Os pescadores não saem de lá. Seus olhos se apossaram de toda aquela beleza e suas redes pescaram naturalmente os contornos e os encantos.
Mas nós fomos saindo, junto com a tarde, para reencontrar Fortaleza. A réstia de sol nos mostrou ainda muita gente nas praias e vários fiéis na cativante igreja de Santa Edwiges, ao ar livre, na beira do mar, ouvindo o barulho das ondas e os cânticos da fé, sob a regência de um vento arisco que leva alegrias e mágoas, que traz sonhos, enganos e desejos, quase todos sagrados para quem os vivencia. Domingo também é dia de feirinha. Tomamos banho, calçamos as sandálias, eu provei da paçoca que comprei na estrada, lembrei da cajuína e fomos todos passear na beira-mar, ao lado de gente de todos os lados do mundo, seguindo aparentemente pelo mesmo caminho, para um destino que se esconde pelas fileiras e pelos passos, como se fosse por entre os milharais ou até entre os prédios, feito espigas, que filtram o vento que passa e passeia do mar para a rua, para o sertão, para o mundo. Vendo assim, parece que somos todos do mesmo lugar. É essa mistura que compõe a beleza de Fortaleza. Afinal, podemos estar na única estrada, em ondas invariáveis e no mesmo barco.
Bem, falando em barco, neste janeiro fomos fazer um cruzeiro, saindo de Fortaleza. Os meninos conheceram Recife e Olinda, passearam em Natal e todos nós conhecemos as maravilhas guardadas em Fernando de Noronha. Foram seis noites, durante os sete dias que estivemos no navio Orient Queen. No navio conhecemos gente do mundo todo, da Ucrânia e das Filipinas, do Egito e da Grécia, gaúchos e cariocas, mineiros e londrinos. A minha filha Laura (19 anos) comentou que as pessoas deveriam falar o mesmo idioma, em todo lugar, e nós imaginamos que esse mesmo idioma não precisa ser apenas de palavras, mas pode ser de gestos, olhares e sorrisos, como os da Gabriela, a nossa caçula. Mais uma vez, percebemos que o mundo é um lugar único e que as separações, muitas vezes, revelam inconvenientes para a comunicação entre as pessoas e para um melhor convívio. Elas começam perguntando de onde você é, se fala tal e qual idioma, mas depois os olhares se acomodam, e se instala a vontade geral de interagir, de compartilhar, de fazer amizades e de trocar idéias. O Derek, meu filho (20 anos), logo se habituou a ouvir e a falar “where are you from?”. No salão de shows, quando eu disse que era do Acre, o apresentador perguntou se era mesmo verdade e olhares curiosos preencheram o ambiente. Mas depois, a curiosidade logo se transforma em simpatia, em simbiose, em convivência alegre.
A convivência alegre aconteceu, por exemplo, com os garçons brasileiros (Hamide e Robson), com a moça das bebidas chamada Olli, natural das Filipinas, com a loirinha romena, do bar reflections, também com o maitre búlgaro ou com o gerente egípcio, que olhou para a minha mãe e brincou que iria chorar, quando ela desembarcasse de volta em Fortaleza. Assim também foi com a bela morena Yana, a ucraniana que nos atendeu no free shop do navio, com sorriso envolto em olhos de negras flores que se abriam bem devagar. Ela levou de presente um exemplar do livro ‘Páginas da Amazônia – Proseando na Floresta’, diante de seu interesse em conhecer as coisas das matas amazônicas. Nos comunicamos um pouco em inglês, espanhol e até em português, que ela fala melhor do que nós falamos inglês. Desembarcamos e a saudade ficou, enquanto os poucos enjôos se foram. Aquelas pessoas do navio se foram, e a impressão imediata é a de que elas seguirão caminho diferente do nosso. Esperamos que todos cumpram o período de cruzeiro no Brasil com sucesso e que os estrangeiros tenham um bom regresso, nos dez dias em que navegarão até a Europa. Como me disse a Yana, todos querem estar em casa, de vez em quando. Como disse minha mãe Clair, reproduzindo meu pai Francisco, as pessoas são encantadas, anoitecem aqui e amanhecem ali. A outra impressão persiste, nos dizendo que estamos todos no mesmo barco e que o caminho tem apenas roteiros variados.
De nossa parte, descemos de volta em Fortaleza, onde nos sentimos em casa, embora já pensando em Rio Branco, onde estão nossas raízes. Mesmo sabendo que estamos no mesmo mundo e lugar, também sabemos que nosso querer está plantado no Acre, com ramificações seguras na pequena Rio Branco, mesmo que os varadouros e as sementes nos espalhem por várias estradas, até pelo infinito mar azul ou verde, pelas lembranças que ele carrega, pelos roteiros que seguimos, adiante dos passos que vamos deixando por Fortaleza, do suor que escorre nas ladeiras de Olinda, além da boa viagem por Recife, adiante do sonhos que a redinha de Natal nos embalou ou bem no meio do balanço do Orient Queen. No meio e além disso, navegam nossos sentimentos de amor pela vida, ainda que sejamos passageiros de rápida viagem, esse amor que também existe pelas pessoas e pelos lugares que emolduram essa mesma viagem.
Num outro ciclo da viagem, estamos embarcando hoje para nossa aldeia. O pessoal do navio está agora em Fernando de Noronha. Meu brother Paulo e a sua Fernanda estão em Paris. Lá de Xapuri, passeando por entre árvores e flores, regando outras praias, o rio Acre vem crescendo e suas águas passarão por Rio Branco com mais volume. Em fevereiro, o rio Acre fica cheio, se comparando com nossos olhos que miram alguns dias passados. Essas águas de rio seguirão para o mar e vão embalar, quem sabe, a dança do Orient Queen. Vão acariciar uns olhos que por lá passeiam. Vão regar umas flores que por lá se abrem. E daqui a pouco, o vento que nos receberá em casa seguirá para a Europa. De lá vai trazer de volta o Paulo, a Fernanda e tantos outros passageiros dessa grande viagem em que todos estamos embarcados. Enquanto isso, eu sigo sentindo um perfume fugidio de flor negra, que devagar se abre no meu pensamento.
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Escrito por José Augusto Fontes - jafontes@osite.com.br
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31-Jan-2010 |
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Carros passam, pessoas voam, o vento caminha por entre crianças que brincam e a vida está diante de minha janela, embalada por uma maresia dissolvida entre prédios que a filtram. A vida também vem filtrada, dissimulada. Eu ainda creio na felicidade que invento, na realidade cheia de fantasia que sempre se avizinha, num momento breve que movimentará o enredo da minha novela. Mas apenas crer já não me basta.
Olho de novo e todas as crianças que representei já não brincam ali em frente, embaixo das nuvens que envolvem minha imaginação. Ainda assim, o tempo continua correndo com o vento, indo e vindo com o mar, nascendo e morrendo como essas folhas que vejo no canteiro abaixo da janela, viajando e se desencontrando como as imagens desenhadas nesse céu que dá cenário à minha revelação. Mas só o cenário não me descreve.
O ar, o vento, a felicidade, a infância, o tempo e as crenças são conceitos que cresceram comigo e sustentaram o mundo, que encenaram a vida, mas já não me movem. Há nuvens que brincam comigo e há imagens que passam, deixando desenhos diferentes no céu, uns assim que não estavam na minha velha bagagem. De lá da floresta que sempre me cercou, trago folhinhas que representam uma viagem que percorro. Não chego em nada inédito, se não inventar conceitos, fantasias, cenários. E nem a realidade me diz tudo o que preciso definir. Mas vou seguindo.
É por isso que escrevo e represento, invento e dissimulo, filtro ou viajo. Ontem tive sorte. A Gabriela (minha filha, sete anos de idade) disse ter ouvido uma mentira muito grande, do tamanho do mundo. Rapidamente, ela corrigiu. Do tamanho do mundo, não! Se fosse do tamanho do mundo ela estaria dentro, e estando, também ela seria mentira. As mentiras não são assim tão grandes, imaginei. Isso foi minha sorte. Talvez minha fé não precise me descrever ou definir. Nem minhas crenças me abarcar. Há muito mais para viver e inventar. E se ainda for pouco, se for preciso mentir, basta fingir como o mundo, sem me deixar incluir.
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Escrito por José Augusto Fontes
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24-Jan-2010 |
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Como luz a palavra viaja continentes e pensamentos, palavra que veio ali da esquina ou do infinito, palavra que chega de um sentido ainda não dito, palavra inquieta ou fria, a fonte da palavra dá a mão e alumia. Palavra que estaciona cansada e ainda nem disse o que queria, o que pretendia, palavra perdida antes do silêncio de outra, que só aquela compreenderia. Palavra que foi embora, palavra bem-chegada, palavra que liberta, tudo viaja.
Senha e expressão, enigma ou abracadabra, meu mundo, guardo de ti umas saudades, várias vontades, desejo e prazer, quase te digo, mas só a palavra desperta, e meu sono é profundo. Meu verso, minha prosa, a palavra que invento, se não vai vencer a morte, vai me vencer, olhando a expressão desenhada, vai passar da minha presença que se pinta. Bem, da minha presença, não sei se digo, não sei se posso. A palavra pensa e grita, liberta.
Desperta. Sem mostrar explicação ou disfarce, talvez ela salte das palavras, minha presença. Quem sabe, um gesto na palavra me faça renascer. Palavra renascida é o próprio ser. No começo era o verbo, é o verbo que importa, exporta, alimenta. É o verbo que cria e amanhece, é o verbo que adormece e cai da noite. Como se voltar fosse assim possível, em prosa ou verso, na versão não dita, cheia de palavras emendadas, já partidas, usadas.
Mas, recriadas as palavras, enfeitadas ou forjadas, trapaceadas, voltar será assim possível, haverá caminho para reencontrar o verbo? Revisitadas, palavras rebatizadas, palavras que tornam de um longo banho, de um distante sonho ou de um longo susto, serão apenas palavras? Lá na frente, se for assim escrito, se não for possível assim imaginar, encenar, quem sabe, o alcance das palavras supere a vida e brinque com a morte, com o instante.
Sem segredo nem silêncio, em algum lugar, até do sentimento, deve estar dito, emudecido, até sem muito alarde, que a palavra passa disso. E passa daquilo, beirando a tal salvação, penetrando o coração, vazando o abrir dos olhos. A palavra passa do que foi dito e visto, do que permaneceu calado, a palavra está adiante do pecado, passa desta vida assim nomeada, daquela morte assim dissimulada, porque é a palavra que lhes dá a definição.
Enganação? Palavras dizem morte e dizem vida, às vezes, nem dizem, palavras são apenas expressão. Como se expressão fosse pouco ou simples, como se palavra fosse apenas verbo. Seguro umas palavras, rebolo outras, calo poucas, sigo a luz. Meu verso, minha prosa, a palavra que invento, se não vai vencer a morte, vai vencer o esquecimento. Escrevo com ela para dizer que espero e preciso. Escrevo para vencer o momento.
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Escrito por José Augusto Fontes - jafontes@osite.com.br
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17-Jan-2010 |
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A gente lê Guimarães Rosa e acha que pode escrever parecido, pensa que é fácil. Vai lendo, está ali, escrito, criado, embelezado, parece simples, dá vontade de meter-se a besta, fazer coisa que o valha, copiar sem confessar, fingir que pode. É fácil perceber que ele diz sem esforço, com jeito, será que não dá para imitar? Melhor reproduzir as mesmas palavras, só elas, não o sentimento que elas desenham. Ninguém imita bem o sentir dos outros. Ninguém diz o que João escreveu e disse. Não é possível ficar parecido, nem mesmo com a parte imediata, deixada para ser logo visível. Muito menos com a parte situada atrás do olho. Essa, ninguém imita, nenhuma fotografia revela.
Sendo literatura, João transcendia ao que se destinava, não era só o dito, nem o escrito. Sendo poesia, a sensibilidade estava adiante das portas do longe. Sendo palavras, tanto quanto tanto, foram ditas para os corações da gente. Palavras usadas para escrever sertões e pessoas, para calar multidões de emoções, para passar dos olhos e ouvidos, para redimensionar a compreensão dos sentidos, veredas sem margens imediatas, sagarana de palavras rebatizadas.
Se não cultivamos rosa nem palavra como o Guimarães, se não nos é possível imita-lo, podemos reproduzir Drummond, que o pinta e borda: “João era fabulista? Fabuloso? Fábula? Sertão místico disparado no exílio da linguagem comum? Tinha pastos, buritis plantados no apartamento? No peito?”. Há muito para reproduzir, para calar. Essas palavras, quem lê perde o jeito, não vê a pedra no meio do caminho. Parece simples?
Grande João, com a gravatinha borboleta, dançando palavras, voando outros sentidos, borboleta reproduzindo, vendo como as coisas mudam, “no devagar depressa dos tempos”. E a gente vai, “sem fazer conta do se-ir do viver”. A gente vai lendo, vendo, seguindo, quem sabe, uma terceira margem do rio nos receba, enquanto vamos passando pela vida, “como o vento querendo apagar uma lamparina”. João da emoção, devia calar não. O entredito sopra as palavras, o sentimento que vem do sertão é como as plantinhas que vão olhando o rio passar, fingindo estar ali só para enfeitar e assistir. É como quem ama a floresta e não cansa de olhar o enganar das águas, fingindo passar num rio que fica, mas também leva e deixa estar. De todos esses lugares, mais longe o real do João.
Fazendo saudade, tecendo lembranças, de bubuia no tempo, devagar e quase sempre, as palavras vão gastando momentos. De tão devagar, esqueci o que estava para dizer e ainda nem naveguei esta página. Parece simples, meter-se a besta, com tudo aquilo escrito. E João disse ter procriado apaixonadamente com a língua, sem receber bênção eclesiástica nem científica. Ora, a bênção pouco sabe dos amantes. “Se não sabe, como vai saber? São coisas que não cabem em fazer idéia”. Será que são apenas palavras? Aparências, nada mais, palavras para gastar o viver. Disfarces vários de palavras, outras coisas ditas para cabalar essa aparência, poesia fantasiada em simples dizer.
João sem definição. Grande silêncio E não chegamos no nada, que por não ter definição, nada é. Emudeço. Nada encontrado, senão na fábula das palavras em voo de borboleta, que tanto anda no mundo e dele não diz. O silêncio se torce, o silêncio se remexe, fica inquieto, fica perto de se quebrar, fica fazendo saudade. Vamos tecer conversa, “guardar rios no bolso e redigir cada gota, nome, curva, fim”. Plantada no peito, a nossa falta de jeito, deveria mesmo calar, depois de dizer que gostaria de saber como imitar, se tivesse coragem de tentar.
Valentia e jeito, palavras de cabresto, olhos para domar, silêncio para engolir, a voz para calar a fantasia, a borboleta dançarina para reproduzir. Aí é que está, vem vindo um sentir que quase imita a emoção do João, a sensibilidade. Há palavras de amor para temperar e servir. Vai-te silêncio. É a hora e há quem queira escutar. O silêncio se torce, está quase partindo, agora que já é possível avistar a terceira margem, o porto do nada, o local em que encontraremos a fábula de todas as palavras, inclusive a das que não foram ditas. Palavras para não existir o risco de dizer o nada, de atingir-se a definição do encanto, do que estava para ser dito e calou, não emudecido, mas cansado, de tanto tentar atravessar este texto simples e fingido, sem jeito nem cheiro, sem coragem nem bagagem, sem voz nem cultivo.
Eis que eis, está dito. Ainda não foi quebrado o silêncio, não totalmente. Não se fundiram as margens. Ainda estou emudecido, meio sem palavras para dizer que não há nada, mais que nada, além do silêncio do olhar, além do gesto sensível de sentir. Além do que há para revelar, encontrar e navegar, percorrer e naufragar, acariciar e gostar. A terceira margem é um encontro. É onde pousa a borboleta. É onde não vemos o milagre. O rio é a vida que nos leva, ou passa por nós, enquanto procuramos palavras para descobrir quem navega e quem conduz. Passa o tempo ou passa o rio? Ao encontro da fábula, sem esquecer o cultivo do prazer, o ir do vento, o voltar da emoção. No encontro das margens, os opostos deitaram-se, no leito mesmo. E a correnteza, indiferente, misturou os veios e concebeu o encontro, no leito mesmo.
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Escrito por José Augusto Fontes
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10-Jan-2010 |
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No ônibus lotado, em todo trem apertado, nas canoinhas que cruzam os rios, Deus deve estar seguindo. Nos escondidos e nos e ares, Deus deve estar sabendo, há sempre alguém acenando, esperando. Ele está olhando quem está parado, quem quase não tem para onde ir, está vendo quem paga penitência e pede passagem, esperando o troco da salvação. Mas ela é depois de agora. É numa próxima estação que Deus nos encontra e paga, estando quitadas nossas vidas. Isso é depois, precisamos seguir. Deus precisa esperar condução? Ele está acima disso? Enquanto cremos e esperamos, não custa muito ajudar quem espera nas filas, quem espera esquecido, quem espera humilhado, com olhar caído e dor elevada.
Para os homens de boa-fé, para todos que vivem na terra mirando o céu, para os que pouco vêem, para os que não cansam de esperar, para os que não podem deixar de trabalhar e com o trabalho alegram a esperança, para os que estão acostumados com a indiferença, para os que se entregam a uma crença, o jeito é esperar pelos homens, esperar que sejam vistos e acolhidos, adiante dos votos e das cédulas. É o jeito esperar serenidade, utilidade, alguma palavra, algum agir. Deus é para sentir, o homem é para abraçar. Em cada dia, em cada instante, existe a possibilidade de estar o homem ao lado do homem, o momento é o que vivemos. Depois, um clarão vai partir ares e mares. E Deus dará.
Para os que não têm terra, os que não têm onde morar, nem sabem o que é teto salarial, para os que mal vão passando, levando, sentindo. Para os que plantam e não colhem, para os que nem plantam, para os que têm o olhar distante, meio perdido, para os que estão nos campos e sertões, cidades e seringais, estradas e esquinas. Para os que têm sede e coragem, para os que têm necessidades e virtudes, para os que vão ficando, para os que continuam seguindo, para os que não têm voz, para todos assim, para que não fiquem sós, espera-se dos homens, de todos os homens, boa vontade, oportunidade, a mão e a sensibilidade, a possibilidade, alguma alegria, carinho, a chance para conquistar o pão.
Esses homens, todos eles, são dos homens, enquanto Deus não vem. Se o homem não vive só de pão, não pode viver só de oração, é preciso sentir e conhecer, é preciso ser. Deus deve estar em todo lugar, deve estar com favelados e necessitados, garis, lavadeiras, domésticas, porteiros, seringueiros, gente do sertão, da solidão, deve estar com os que morrem e matam, com os que se acabam esperando, com os que já nascem devendo, com os que vivem se esbaldando e só ganhando, com os que não notam nem revoltam, até com os que não acreditam, que de tantos, dão a Ele muita ocupação. A gente quer e sente Deus, em todos os gritos que nos acodem, até nos que nos calam. Falta sentir o homem.
Todos esses, todos aqueles, não são apenas para olhar e passar, enquanto Deus não vem e mostra-se num lugar definido para os direcionar, quem sabe, para podê-los abraçar. Ele vai vir, mas já há homens aqui, bem ao lado, enquanto fingimos não haver. Todos eles são dos homens, filhos de uns e outros, da mesma cor ou de outro calor, nenhum passa disso, é fácil sentir, mas é preciso começar, ser útil, possibilitar, acreditar, enquanto dá, enquanto eles estão por aqui, enquanto é possível. Parques, cidades, florestas e subterrâneos estão cheios de gente que espera, gente que crê e quer você, gente que espera mas gostaria de antecipar, gente que quer participar, ser vista, escutada, encontrada.
Aqui embaixo, a situação está mais apertada, apressada, sem tempo para andar nas nuvens. Há até a impressão que as nuvens estão muito carregadas, que o céu está para cair em nossas cabeças e que algum outro dilúvio será a salvação da situação pouco abençoada, que precisa zerar e reiniciar. Há esperas que vão ficando eternas, o tempo parece cruel, demorado e cruel. Antes disso, há o homem que quer ser abraçado, sentido, ainda que pouco abençoado, há o pão para comer, o riso para sorrir, a mão para segurar. Além de todas as preces, enquanto possível, muitos homens esperam para ser, para viver. Deus está em todo lugar e o homem está aqui, esperando, precisando.
Deus está sabendo, providenciando, vai dar um jeito, tudo tem hora, acreditamos. Enquanto isso, seguimos a fila do caixa, depositamos o dízimo, entregamos o suor, gastamos a fé para pagar a conta de água, para quitar o talão e receber a luz da redenção. O caixa é voraz, insaciável, incansável, sem tempo para temer a Deus ou para notar que Ele está vendo tudo. O caixa não dá descontos nem atrasa. É possível mudar e ser diferente? Deus é quem sabe? Sabemos que Ele nos paga tudo isso, depois. O paraíso é caro, mas vale a pena. E é eterno, pois para ir é preciso morrer. Não temos muitas notícias do mundo de lá, e na procura delas, vamos esquecendo o mundo de cá.
A fé é assim mesmo, interessante e distante, é como o amor, como a dor e a viagem, cada um vai levando a bagagem que lhe cabe, cada um sabe o que deve carregar, o que não pode esquecer. Quase todo mundo espera muito, mas viver esperando não é requisito para crer. A fé não é só no que vem, pode ser no que está. Antes da viagem, é de fé dar uma mãozinha aos que ficaram lentos, perdidos na espera. Às vezes, eles estão bem ao lado e vão sumindo, parando. Olhar e sentir, é fácil tentar. Como Deus está em todo lugar, isto deverá ser creditado, na ocasião do juízo final. Enquanto isso, aqui neste plano, creia, o homem tem fé em você. E continua esperando, querendo, precisando.
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