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Escrito por Idésio Luis Franke *
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09-Fev-2010 |
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A ciência e o conhecimento avançam a passos largos, desenhando uma nova configuração geopolítica mundial. Desde os primórdios da humanidade o domínio da natureza pelos homens e do homem sobre seus semelhantes foi uma obsessão, mas foi nos últimos dois séculos que essa relação começou a se demonstrar insustentável.
A revolução industrial – fruto do progresso técnico e de um novo modelo de exploração da força de trabalho humana – não levou em conta a finitude dos recursos naturais e abandonou os valores fundamentais de dignidade dos homens construída na evolução social ao longo da história.
Se a dignidade humana não mais era considerada, imagine o respeito às demais espécies vivas e aos elementos paisagísticos físicos, aos quais a suposta “superioridade humana” subjugou. Mas o planeta terra há muito manda os sinais de que esse modelo de produção e relação dos homens com as demais espécies vivas está se esgotando.
A degradação dos solos e rios, desertificação, chuvas ácidas, poluição do ar e águas, furacões, tormentas, alagações, extermínio de indígenas, guerras, fome, doenças, são alguns dos sintomas visíveis de um desenvolvimento predatório e desigual que não mais se sustenta.
No Acre começa na década de 60 um movimento que começa a se contrapor a algumas dessas mazelas. As Ligas Camponesas, movimento de trabalhadores que já se opunha a alguns desses males demonstrou que o povo Acre, a exemplo da revolução acreana, não se conformou e demonstrou contínua reação à exploração humana.
A ditadura militar sufocou o movimento das ligas camponesas, mas a semente plantada deu origem a um movimento muito mais pujante, a criação dos sindicatos de trabalhadores rurais e a luta pela terra, que continha elementos fortes de reivindicações pela transformação do sistema produtivo e da sociedade.
As instituições como os sindicatos, ONGs, órgãos de governo – principalmente a Universidade Federal do Acre e Fundação de Tecnologia do Estado do Acre, igreja católica, associações de classe, partidos políticos progressistas e demais forças da sociedade civil organizada propiciaram a construção de um novo “modelo” ou projeto de desenvolvimento e de sociedade, construído a muitas mãos, configurado no que se convencionou denominar “Projeto de Desenvolvimento Sustentável do Acre”.
A geração mais nova do Acre composta de nossos jovens não vivenciou esse período que foi da década de 1970 até os anos finais de década de 1990. Talvez por isso tenham um pouco de dificuldade para compreender a luta política que se estabeleceu. Não é exagero afirmar que o enfrentamento à corrupção generalizada, ao crime organizado, à pistolagem e à exploração dos trabalhadores custou muito sangue, suor e lágrimas.
As forças políticas que estão transformando o Acre para melhor devem olhar para o futuro espelhando-se no passado e no presente, na perspectiva de avanços permanentes. Isso quer dizer que não podemos nos acomodar.
O dilema entre crescimento econômico e distribuição desigual de renda, de um lado, e degradação ambiental e conservação ambiental de outro, revela um conflito que está na raiz do modelo de produção vigente. A idéia de um novo modelo de desenvolvimento que compatibiliza as dimensões econômica, social e ambiental, surgiu para tentar resolver esse conflito da sociedade moderna.
A noção de Desenvolvimento Sustentável envolve uma fundamental determinação política, cabendo à ciência e às relações sociais estabelecidas entre os homens, a busca dos caminhos e explicações, para que a sustentabilidade possa ser alcançada. Da mesma forma, as práticas insustentáveis de hoje não podem ser o aceitas com base na crença de que os avanços tecnológicos, no futuro, as tornarão sustentáveis.
As mudanças e as transformações são inerentes aos seres humanos e revolucionam permanentemente a sociedade. A busca pelo “desenvolvimento sustentável” ou “sociedade sustentável” deve ser permanente, o que se faz com conhecimento, informação, comunicação, debate, planejamento e política, tendo em vista a construção de uma nova sociedade.
* Economista e Engenheiro Agrônomo, Mestre em Desenvolvimento Sustentável – gestão de C&T, Doutorando em Desenvolvimento Sustentável – gestão ambiental pela UnB
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Escrito por Ruy Fabiano
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07-Fev-2010 |
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O papel de equilibrista que Lula protagoniza na cena política brasileira é raro e intransferível.
Nesse sentido, reedita Getúlio Vargas, cuja trajetória assemelha-se à de um pêndulo, indo da esquerda à direita com a maior facilidade, confundindo quem quer que o queira definir ideologicamente.
Getúlio chegou ao poder em 1930, a bordo de uma revolução liberal, cuja agenda propunha, entre outras coisas, o voto secreto e o voto feminino. Uma vez empossado, não convocou eleições. Nem voto secreto, nem voto aberto; nem feminino, nem masculino.
Convocou, sob pressão de uma guerra civil – a revolução constitucionalista de São Paulo, em 1932 -, uma constituinte, cuja Carta foi a de mais escassa duração da história: três anos.
Em 1937, deu um golpe, de índole fascista – o Estado Novo -, outorgando uma Constituição, que durou até 1945. Mandou o Brasil à guerra contra o fascismo, mesmo comandando aqui um governo fascista.
Não resistiu à contradição e foi deposto, depois do fracasso do movimento queremista, que, na tentativa de mantê-lo no poder, o levou a associar-se aos comunistas, que antes havia aprisionado.
Fracassou, mas indicou o seu sucessor, o general Eurico Dutra, criando ainda dois partidos antagônicos, PSD, ruralista e conservador, e PTB, sindicalista e destinado a absorver o discurso de esquerda.
Voltou ao poder pelo voto direto em 1950, a bordo dessa ambigüidade – e, ao rompê-la, em pleno reinado da Guerra Fria, sucumbiu às contradições que antes manejara.
Lula faz um jogo parecido, ajustado a outra conjuntura, mas cuja substância é a mesma: a gerência de antagonismos ideológicos. A síntese desse papel está dada pela recente performance em dois ambientes antípodas: o Fórum Social Mundial, de Porto Alegre, de esquerda, e o Fórum Mundial de Davos, Suíça, que reúne governantes do Primeiro Mundo e expoentes do capitalismo.
Num, foi aplaudido de pé, a bordo de uma inflamada retórica esquerdista; noutro (a que não pôde comparecer, por razões de saúde), recebeu o título de Estadista do Ano de 2009.
A chave do equilibrismo está em sua popularidade, por todos temida. Nem a esquerda o descarta, apesar de contrariá-la mantendo a política econômica que herdou; nem os empresários o afrontam, devido ao papel de algodão entre cristais que representa junto aos movimentos sociais. Só que esse papel é intransferível.
E provisório.
Em algum momento, como ocorreu com Getúlio, será preciso optar. E o vínculo visceral de Lula é com a esquerda, os movimentos sociais, o sindicalismo, dos quais é egresso. Deixou a opção para Dilma. Mas ela não expressa esse equilibrismo. Ela é a ruptura.
E isso está claro não apenas no 3º Programa Nacional de Direitos Humanos, que tem suas digitais, mas igualmente no Programa Nacional de Desenvolvimento, ontem divulgado, um pré-projeto de governo da ministra, a ser submetido ao 4º Congresso Nacional do PT, de 18 a 20 de fevereiro.
O Programa é de teor estatizante e informa que Dilma estará à esquerda de Lula. Insiste em tachar de liberal o governo FHC, não obstante Lula o tenha preservado e aprofundado exatamente nos pontos em que o critica - as políticas econômica e monetária -, fator que lhe garantiu os índices que hoje exibe com justa euforia.
O Programa se propõe a manter e expandir a estratégia de conferências nacionais, que, em regra, reúnem a militância, sem a participação do contraditório. Os resultados, porém, são apresentados como expressão da vontade da sociedade civil.
O resultado é a controvérsia do PNDH 3, que pôs em guarda simultaneamente gigantes institucionais como Igreja Católica, ruralistas, mídia, Forças Armadas e Judiciário, para citar apenas alguns. O recado é claro: é hora de avançar.
Avançar, no caso, significa romper a ambiguidade de Lula e assumir com nitidez o projeto da esquerda.
Lula, que em 2002, teve que escrever a “Carta aos Brasileiros”, para deter a paranóia que sua eleição inspirava ao capital, serviu-o de tal forma que agora, via Dilma, para não perder aliados históricos, está tendo que escrever uma espécie de “Carta aos Companheiros”, que a tanto equivalem o PNDH 3 e o Programa Nacional de Desenvolvimento.
Ao que parece, acabou a era “Lulinha paz e amor”. Começou a hora da verdade. Melhor assim.
Jornalista
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Escrito por Tião Vitor - tiaovitor@pagina20.com.br
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06-Fev-2010 |
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O programa Floresta Digital, lançado quinta-feira pelo governador
Binho Marques é um projeto revolucionário, não tenho dúvida disso. Mas
para ter realmente esse caráter é preciso muitos ajustes. Se todos os
problemas não forem resolvidos em curto espaço de tempo, ao invés de
elogios, esse vai ser mais um daqueles projetos do governo que servem
de chacotas nas conversas de bares ou mesmo nas tuitadas na internet.
Fiz ainda ontem meu cadastro no programa. Foi rápido e fácil. Bastou
que eu levasse um documento até à Biblioteca Pública, no centro, para
me cadastrar. É preciso apenas CPF ou identidade.
É justo no
cadastro, porém, que se inicia o primeiro problema. Pelo que soube, o
cadastro é uma exigência legal e que o governo não teria como fugir
disso. Entretanto, tenho medo deste cadastro. Há sempre o risco de
monitoramento. Não estou aqui afirmando que o governo vá promover esse
tipo de coisa, mas temo que tais informações estejam fáceis e à
disposição de um funcionário ou de um chefete qualquer com mania de
dono do mundo. Não gosto de ninguém olhando por detrás do meu ombro.
Há
outro problema no cadastro. Para ter acesso à rede usa como login o CPF
do usuário ou o número de sua carteira de identidade. A senha é o
primeiro nome do cidadão. Vejam bem, se o cadastro é exigido para
facilitar a punição de quem comete crimes na rede, então essa é uma
tática falha. Qualquer um que souber o nome de alguém e o seu CPF
poderá entrar na internet se logando como ele. Nome e CPF de muita
gente está espalhado por aí nos cadastros de lojas, nos SPCs e Serasas
da vida e em tantos outros lugares. É perigoso até mesmo deixar os
documentos em alguma copiadora.
O sinal também é outro problema.
Logo que fiz o meu cadastro na biblioteca, tentei acessar a rede pelo
celular. Foi uma luta árdua que durou mais de 30 minutos. Eu estava há
poucos metros da antena instalada ali na praça. Quando conectava e ia
para a página do governo para logar, lá a conexão caia. Quando se
mantinha por algum tempo, não tinha navegabilidade suficiente para
carregar a página.
Feito finalmente o login, tentei a minha primeira
tuitada na rede do Floresta Digital. Mais uma vez a conexão se desfez e
eu me aborreci e deixei pra lá.
Esse problema na conexão parece
estar acontecendo em muitos lugares. Talvez isso se deva pela grande
quantidade de pessoas que está se conectando ao mesmo tempo. A procura
pelo cadastro na Biblioteca Pública está sendo grande e, da mesma
forma, nos telecentros.
Não dá, por enquanto, para saber se nas
residências vai ser preciso o uso de antenas. Muita gente vai adquirir
o equipamento meio às cegas. Por isso é aconselhável que se espere até
o meio do ano, prazo suficiente para que todos os ajustes sejam feitos
e se possa saber qual o verdadeiro alcance das antenas.
Algumas
pessoas até já falam em cancelar contratos com as operadoras que
fornecem acesso à internet. É preciso calma, pois, mesmo que o sinal
chegue fácil nas residências, a banda de transmissão de dados pode ser
muito pequena e não suporte os usuários domésticos e ainda todo o fluxo
que da demanda oriunda do poder público. Neste caso, o sujeito vai
querer arrancar os cabelos quando tentar acessar uma página simples na
internet ou baixar uma fotinha pequena do Orkut.
Apesar disso,
mantenho a fé que o programa vai mesmo revolucionar o Acre. Creio que
este é o maior programa de inclusão digital e social já desenvolvido no
país e torço para que esses problemas não o descaracterizem e muito
menos o reduzam a uma proporção menor do que a que ele merece.
Jornalista
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Escrito por Leonardo Boff
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05-Fev-2010 |
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Disse Jesus nos evangelhos:”Se não vos converterdes, todos vós perecereis”. Quis dizer: “Se não mudardes de modo de ver e de agir, todos vós perecereis”. Nunca estas palavras me pareceram tão verdadeiras como quando assisti a Crônica de Copenhague, um documentário da TV francesa e passada num canal fechado no Brasil e, suponho, no mundo inteiro. Na COP-15 em Copenhague em dezembro último, se reuniram os representantes das 192 nações para decidir a redução das taxas de gases de efeito estufa, produtores do aquecimento global.
Todos foram para lá com a vontade de fazer alguma coisa. Mas as negociações depois de uma semana de debates acirradíssimos chegaram a um ponto morto e nada se decidiu. Quais as causas deste impasse que provocou decepção e raiva no mundo inteiro?
Creio que antes de mais nada não havia suficiente consciência coletiva das ameaças que pesam sobre o sistema-Terra e sobre o destino da vida. É como se os negociadores fossem informados de que um tal de Titanic estaria afundando sem se dar conta de que se tratava do navio sobre o qual estavam, a Terra.
Em segundo lugar, o foco não estava claro: impedir que o termômetro da Terra suba para mais de dois graus Celsius, porque então conheceremos a tribulação da desolação climática. Para evitar tal tragédia, urge reduzir a emissão de gases de efeito estufa com estratégias de adaptação, mitigação, concessão de tecnologias aos países mais vulneráveis e financiamentos vultosos para alavancar tais medidas. A preocupação agora não é garantir a continuidade do status quo mas dar centralidade ao sistema Terra, à vida em geral e à vida humana em particular.
Em terceiro lugar, faltou a visão coletiva. Muitos negociadores disseram claramente: estamos aqui para representar os interesses de nosso país. Errado. O que está em jogo são os interesses coletivos e planetários e não de cada pais. isso de defender os interesses do país é próprio dos negociadores da Organização Mundial do Comércio, que se regem pela concorrência e não pela cooperação. Predominando a mentalidade de negócios funciona a seguinte lógica, denunciada por muitos bem intencionados, em Copenhague: não há confiança pois todos desconfiam de todos; todos jogam na defensiva; não colocam as cartas sobre a mesa por temerem a crítica e a rejeição; todos se reservam o direito de decidir só no último momento como num jogo de pôquer. Os grandes jogadores se omitiram: a China observava, os EUA calavam, a União Européia ficou isolada e os africanos, as grandes vítimas, sequer foram tomados em consideração. O Brasil no fim mostrou coragem com as palavras denunciatórias do Presidente Lula.
Por último, o fracasso de Copenhague - bem o disse Lord Stern lá presente - se deveu à falta de vontade de vivermos juntos e de pensarmos coletivamente. Ora, tais coisas são heresias para espírito capitalista afundado em seu individualismo. Este não está nada interessado em viver juntos, pois a sociedade para ele não passa de um conjunto de indivíduos, disputando furiosamente a maior fatia do bolo chamado Terra.
Jesus tinha razão: se não nos convertermos, vale dizer, se não mudarmos este tipo de pensamento e de prática, na linha da cooperação universal jamais chegaremos a um consenso salvador. E assim iremos ao encontro dos dois graus Celsius de aquecimento com as suas dramáticas consequências.
A valente negociadora francesa Laurence Tubiana no balanço final disse resignadamente:”os peixes grandes sempre comem os menores e os cínicos sempre ganham a partida, pois essa é a lógica da história”. Esse derrotismo não podemos aceitar. O ser humano é resiliente, isto é, pode aprender de seu erros e, na urgência, pode mudar. Fico com o paciente chefe dos negociadores Michael Cutajar que no final de um fracasso disse: “amanhã faremos melhor”.
Desta vez a única alternativa salvadora é pensarmos juntos, agirmos juntos, sonharmos juntos e cultivarmos a esperança juntos, confiando que a solidariedade ainda será o que foi no passado: a força secreta de nossa melhor humanidade.
Teólogo
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Escrito por Marcos Coimbra
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04-Fev-2010 |
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Janeiro terminou cheio de boas notícias para Lula, pensando no seu projeto principal, aquele ao qual dedica seu melhor esforço: dar a vitória a Dilma em outubro.
Nas duas pesquisas nacionais divulgadas nos últimos dias, os resultados são-lhe todos favoráveis: sua popularidade subiu, sua candidata melhorou, o principal adversário parou ou retrocedeu um pouco, aumentou a tendência à polarização.
A primeira foi feita pela Vox Populi entre os dias 14 e 26 e a segunda pela Sensus, entre os dias 25 e 29, as duas em janeiro. Nelas, não há nenhum resultado que surpreenda pelo ineditismo, tudo sendo coerente com o panorama que outras pesquisas, feitas no correr de 2009, já apontavam.
Elas apenas mostram que a passagem do tempo está contribuindo para provocar a situação desejada pelo presidente.
Ambas testaram duas hipóteses nas perguntas de intenção estimulada de voto, uma com e outra sem o nome de Ciro Gomes. Nos dados da Vox, Serra continua liderando, mas com vantagem significativamente menor.
Com Ciro na lista, Serra tem 34% e Dilma 27%, ele 11% e Marina 6%. Sem, Serra sobe para 38%, Dilma fica com 29% e Marina com 8%. Na Sensus, Serra teria 33% e Dilma 28%, ficando Ciro com 12% e Marina com 7%. No outro cenário, Serra 41%, Dilma 28% e Marina 10%.
Olhando para o que tínhamos há alguns meses, as mudanças são grandes. Não faz muito tempo, Serra reunia, sozinho, intenções suficientes para vencer a eleição em primeiro turno, ao fazer mais que a soma de seus oponentes.
Nessas pesquisas, mesmo no cenário sem Ciro, a possibilidade parece remota.
A dianteira de Serra sobre Dilma foi o que mais mudou. Na pesquisa anterior da Vox, feita em meados de dezembro, sua vantagem passava de 20 pontos percentuais, que se reduziram a 7% ou 9% agora.
Algo parecido acontece nos dados da Sensus, embora sua pesquisa anterior seja de novembro: a diferença entre os dois iria de 5%, com Ciro na lista, a 13%, sem ele.
O encurtamento da vantagem do governador em relação à ministra já tinha sido constatado em outras pesquisas feitas em dezembro. O Datafolha, por exemplo, havia indicado uma queda de 21 para 14 pontos entre agosto e o final de 2009, depois dela ter estado em 25% alguns meses antes.
As duas pesquisas concordam que a candidatura de Ciro se mantem em um patamar entre 10% e 15%, mais perto do limite de baixo que de cima dessa faixa. E ambas mostram que Serra é quem mais se beneficia da retirada de Ciro das listas, pois é quando seu nome delas consta que Serra se sai pior.
É fácil se confundir na interpretação desses resultados, deles deduzindo que “Dilma precisa de Ciro”. Trata-se, no entanto, de um equívoco, que decorre de não se considerar o nível de conhecimento muito desigual que ainda há entre os candidatos.
Serra e Ciro são os únicos que muitos eleitores conhecem, pois disputaram eleições nacionais, coisa que nem Dilma, nem Marina fizeram. A proporção dos que nunca sequer ouviram falar nelas permanece perto de 35%.
Quando essas pessoas consideram listas onde estão os nomes dos dois, optam, na maioria das vezes, por um ou outro. E, quando um sai, pelo que resta.
Ou seja, não é que “Ciro tira mais votos de Serra que de Dilma”, apenas que quem não conhece (ainda) Dilma ou Marina tende a ir para Serra quando só resta ele de conhecido. Isso fica aritmeticamente claro nos dados da Sensus:
Dilma permanece exatamente igual nos cenários com e sem Ciro, mostrando que, quando ele sai, ela não ganha (por enquanto) nem um ponto.
À medida, no entanto, que avançar o conhecimento das duas, o que vai acontecer mais rapidamente de agora para frente, esse efeito se reduzirá. Aí sim será possível falar alguma coisa sobre a transferência de votos de Ciro (ou qualquer outro candidato) para os demais. As pesquisas de agora nada dizem sobre esse fenômeno.
Com Ciro parado e Marina sem dar mostras de crescer, outro dos projetos de Lula para as eleições está se materializando. Tudo indica que teremos a polarização que ele sempre buscou, um embate PT vs. PSDB já no primeiro turno, em que ele tudo fará para que os eleitores confrontem seu governo ao do antecessor.
Ajudando a entender seus resultados eleitorais (e o que permitem antever), as pesquisas mostram que Lula sobe mais um degrau em um tipo de popularidade que não conhecíamos em nossa experiência como país democrático.
Há tempos se sabe que ele tem, atualmente, uma avaliação positiva quase consensual, mas é sempre surpreendente constatar que ela continua a melhorar. No final de janeiro, segundo os dados da Vox, 74% dos brasileiros achavam seu governo “ótimo” ou “bom”, ou seja, 3 em 4 pessoas. Como outros 20% consideram o governo “regular”, restam 6% para reprová-lo.
Com uma insatisfação desse porte, podemos ter uma ideia do tamanho do desafio que aguarda Serra.
Sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
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